O escrivão Sebastião Barbosa de Souza nunca saiu de Alagoa Nova. Nunca, em circunstância nenhuma, chegou a empreender qualquer viagem além de sua calçada.
A casa e o cartório faziam esquina com a praça central, tinham duas frentes e a calçada em L, espaço suficiente para o percurso de toda a sua existência. Quarenta e tantos anos de tabelionato não tiveram outro sítio nem precisaram de outra paisagem.
E não se vá dizer que seu Basto não andasse. Cumpria, diariamente, horas e horas de viagens, a camisa muito bem ensacada na calça caqui, os braços cruzados, indo e vindo de uma ponta a outra do seu mundo. Recostados à parede, como bens imóveis, ficavam Zé e Biu Neri, que lhe serviam de oficiais de justiça e de fiel auditório.
Nessas jornadas essas três pessoas atravessavam os anos e o mundo. Seu Basto, sentencioso, sempre falando, e o auditório passivo, só ouvindo. O mundo passando por eles, vindo até a sua calçada com guerras, depressões, glórias e fraquezas.
Mas Sebastião de Souza conhecia o mundo desse pequeníssimo porto, tocado, em incerto grau de latitude, apenas e tão somente das frestas da aurora e do frio do pôr do sol. Seu Basto ouvia a BBC, lia o jornal. Na sua paz rural, o jornal e o rádio faziam o grande tumulto. Ele pisava numa réstia de terra, mas vendo Londres, ouvindo o rumor de toda a Europa em fogo, tudo bem próximo de si, casamatas e trincheiras, tão grande era o silêncio do seu posto.
Mas lembrei-me de seu Basto com a intenção na Igreja da Guia. A Igreja da Guia, século XVI, o mais tropical dos nossos monumentos barrocos e muito mais longe de nós do que Alagoa Nova de Londres.
Trezentos mil pessoenses não conhecem a Igreja da Guia bem pertinho deles, à margem esquerda da foz do Paraíba, a três remadas de Cabedelo e a poucos instantes de Lucena. E ninguém vai lá. Ninguém da Paraíba, é claro. Pois lá esteve, por interesse da construtora Odebrecht, o maior conhecedor dessas raridades, Clarival do Prado Valladares, para incluí-la no “Nordeste Monumental”, um rico álbum do patrimônio artístico brasileiro.
A Paraíba tão rica, tão esplendorosa, e o paraibano tão pobre. Trezentos mil bichinhos, indo e vindo pelo Ponto de Cem Réis, sem a mínima noção do ouro que eterniza os seus caminhos.
A gente chega a ter a dolorosa impressão de que os fundadores não fizeram mais do que perder seu precioso tempo. E a arte e o ouro que empregaram nele.
Sou muito mais Basto, vendo o mundo sem passar da sua calçada.