É desolador ver esse inferno real em que foi transformado o Rio de Janeiro. Logo o Rio, cidade por tantos títulos sedutora!
A reportagem da semana é um freio a quem quer que pretenda baixar no Rio, seja qual for o pretexto. Aqui em casa já assusta o que antes era tão animador, ou seja, a possibilidade, praticamente garantida, de um filho fazer mestrado na UFRJ. O clima em família é de apreensão, nem ao menos o rapaz chega lá.
O turismo fugiu, os investimentos e negócios se retraíram, os grandes amantes da vida carioca se exilam em Miami e outros lugares onde podem viver mais seguros.
Faz medo o Rio, a capital cultural e turística do país, praça onde antigamente todas as naturalidades se sentiam conterrâneas. Sem discriminação, sem separatismo, o mar se dando a todos e a roda de samba, também.
Meu primeiro contato foi, digamos assim, verossi-milhante: a ficção de Machado de Assis com a realidade da Rua do Ouvidor. Posso dizer que fui ao Rio, briguei por uma passagem, sujeitei-me ao beliche irrespirável da Cândido Mendes, só por esse prazer estético-vital de pisar no mesmo espaço de Bentinho, de Rubião, do Conselheiro Ayres; de olhar as montanhas no mesmo banco de praça onde filosofava o velho Gonzaga de Sá. Rio como cenário turístico, desde o romance à canção popular, desde o pano de fundo dos filmes da Atlântida à tristeza brasileira dos sambas de Noel.
Foi uma felicidade chegar ao Rio, pisar no Rio, sentir o Rio. A impressão era de que todas as minhas leituras me falavam. E também as minhas noções importadas de paisagem e beleza. Só uma coisa superara em muito o que a ficção e as estampas me levaram a imaginar: a mulata de rua, solta e nua dentro do vestido, sempre resvalando da narração e dos pincéis.
Agora tenho medo de andar, parar e sentar na estação das antigas leituras. A galeria de Machado, de Lima Barreto, de Macedo, que circulava no núcleo antigo da Ouvidor, da Colombo, da Gonçalves Dias, foi bruscamente tomada por um ciclone de olhos de fogo, cabelo em pé, a qualquer instante o corte de estilete. A madame cai sem fôlego de um puxavão no cordão de ouro, quase a estrangulá-la. Ladrão e polícia derrubando bancas e gentes na vigésima carreira do dia. Falta-me paz para olhar a vitrine da Avenida Central. Começo a sentir que um policial imenso anda me seguindo. Minha cara sub me denuncia.
Só descanso quando dou com a vista nas casinhas do interior da nossa Rua da Palmeira. As casinhas se agarrando uma com a outra, a moça na janela, e a avó vizinha mandando o neto tanger as guinés do asfalto para dentro de casa.
Viva Manuel Bandeira!
Viva Filipéia!
Eita, vida besta, meu Deus!