quarta-feira, 13 de maio de 2026
No tempo de José Américo
13/05/2026

O governo de José Américo pegou-me entre os 17 e 21 anos, quando o gosto da vida, para mim, vinha por escrito, sabendo a livro. Entre ir a Pilar pela rodagem, o real por si mesmo, eu preferia ir em Zé Lins, em letra de forma, correndo no texto, que era ver sentindo, vivendo.

Tomava a Biblioteca Pública, minha principal condução, e saía por aí, sem limite de terra nem de tempo, dando-me a conhecer pessoas, lugares, situações que, por mais longínquos e remotos, tinham de chegar a mim, compor a minha circunstância. De tal forma que, andando no Ponto de Cem Réis tanto encontrava Mário Santa Cruz como Julien Sorel. Entrava no antigo “Alvear” como se entrasse no café parisiense onde atiraram em Jean Jaurés. Não havia absurdo nisso. Pisava em páginas, vivia livros, era mais personagem que leitor. O gosto da vida, seu sentido, era o que as leituras me infundiam. Tanto que larguei o Liceu, deixei de ser doutor ou bacharel, simplesmente para tomar as dores de Lima Barreto, o nego Lima.

Nesse tempo, entre o açude e a frase de José Américo eu preferia a frase. Dava todos os latifúndios reais por um quinhão de terra imaginado. Construção não era a que pedisse ferro, pedra, cal nem maquinismos, era a que pedisse letras, se montasse em hastes e serifas gráficas, partisse de minúsculos traços e construísse um mundo.

Fazia a revisão do “Diário Oficial” e não sabia um só ato do governo.

Freiaram o rio Paraíba, armazenaram milhões de metros cúbicos d’água, começaram a BR 230, fundaram a Universidade, tudo José Américo fez, mais o que me ficou, mesmo, ou está em livro ou subiu com a Senhora de Fátima, no discurso de sua chegada.

Gravei, desse tempo ou desse reinado de José Américo, a facilidade que nos oferecia de passearmos simultaneamente na mesma calçada com as grandes celebridades do país. Zé Lins perdia o mito, desencantava-se dos livros, para discutir o Flamengo com os pilungas de “A União” e da Praça João Pessoa. Já era tão nosso que a gente nem ligava mais pra ele. Tristão de Ataíde, um pensador místico de suma grandeza, de vez em quando batia em nós, na mesma calçada. Gilberto Freyre, Assis Chateaubriand, figuras difíceis de se dissociarem da sua imagem, chegavam a vulgarizar-se nas calçadas da Paraíba.

Sem falar nas legendas políticas como Juarez Távora, Juracy Magalhães, Cordeiro de Farias, Carlos Lacerda, que frequentemente passeavam a fama pelos nossos cafés.

Foi-se o Velho e foram-se os convidados. A impressão que deixou é que a Paraíba era ele, espírito que se fez terra e terra que fez água tão logo sumiu o guardião e timoneiro.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.