quarta-feira, 6 de maio de 2026
O escritor B. Rohan
06/05/2026

A ênfase que a propaganda de Fernando Henrique Cardoso vem dando à sua condição de candidato preparado, culto, rico de informações e de visão, condição que os mais antigos davam a quem preenchesse o nome de “avisado”, só me lembra a figura de Beaurepaire Rohan, o presidente mais avisado que já governou a Paraíba.

Em verdade, do Império à República, não tivemos outro governante de formação, espírito, preocupações e experiência mais fecundas que esse engenheiro mandado para aqui em 1857, depois de ter passado pelo governo do Pará, do Paraná, e de ter servido como engenheiro-militar em diversas missões pelo Mato Grosso, Paraguai, em todas elas aberto não só aos problemas da administração como aos estudos sociais, econômicos e à pesquisa.

É de B. Rohan a primeira visão moderna do tratamento ao índio, antecipando-se a Rondon nas propostas e até na prática. Sobre o assunto escreveu um documento que é uma réplica às teorias de então, sustentadas pelo Visconde de Porto Seguro de se “levar o índio a ferro e fogo”. Na “Conquista, Catequese e Civilização dos Selvagens do Brasil” B. Rohan se contrapõe ao “Memorial Orgânico” do Visconde.

As múltiplas facetas de estudioso e estadista são revividas por todos os que a ele se referem, de Raul de Góis a Celso Mariz. “De fato, a estatística, a agricultura científica, a instrução de prendas e ofícios domésticos femininos, o saneamento e embelezamento da cidade e dos vales paludosos, a penetração de boas vias para o interior, a colonização, o trabalho livre, o estudo das riquezas vegetais e minerais foram objetivos, ensaios e começos de ação prática por parte de Beaurepaire Rohan”. Vamos encontrá-lo percorrendo o interior, não apenas como excursionista e observador, mas como instrutor dos agricultores da época, apeando-se da montaria para ensinar o melhor plantio da cana, dos legumes, das hortaliças, ensinando o morador do campo não só a plantar como, sobretudo, a comer. Em sua Corografia ele lamenta a pobreza, não apenas da produção de alimentos, mas, sobretudo, da nossa falta de educação alimentar.

Entretanto, não é o grande administrador, o estadista ou mesmo o cientista o que mais surpreende nesse vulto de quem o povo conhece apenas a rua. É o escritor, o estilista de linguagem clara, precisa e moderna numa província e numa época em que a melhor escrita era, exatamente, a que mais vedasse o acesso à maioria dos leitores. Em 1858/59, B. Rohan escrevia para ser mais entendido do que Carlos Dias Fernandes nos anos 20. Sem torneios de frases, sem palavras difíceis, trabalhadas com clareza e propriedade de linguagem. Antes de ser sábio administrador é consciente escritor. Sua Corografia da Paraíba, um dos documentos mais completos dos recursos naturais, econômicos e culturais da província de então, não guarda diferença, em estilo, das páginas de Celso ou Coriolano. O Visconde de Taunay, autor famoso de A Retirada da Laguna e Inocência, classificado como escritor de transição entre Romantismo e Realismo, tem dele a melhor impressão. Sendo trinta anos mais moço do que B. Rohan, pode-se dizer, em estilo, que escreve mais velho. Laguna e Inocência são ricos de descrições impressionistas, o texto maracacheteando das riquezas e torneios da época, mas não têm a concisão e a enxutez dos relatórios de Rohan. Relatórios de palavras limadas, próprias, sentadas na construção com o objetivo único de serem precisas, verdadeiras.

O documento de 58 apresentado à Assembleia Legislativa, mutatis mutandis, parece ser o antecedente, em oitenta anos, do famoso relatório de Graciliano. É claro que, na relação com o mestre Graça, eu deveria ter dito mal comparando. Mas o velho coronel imperial, pela cultura do seu tempo, não fica muito a dever em clareza e objetividade. O espaço não me permite excertos nem citações. Mas quem tiver as Datas e Notas de Irineu Pinto veja as páginas 257/265. Não há rebuscamentos, não há torneios, não há uma única expressão do século passado que o estudante de agronomia de hoje não entenda. Até escrevendo ele cumpria a sua condição de estadista. Estadista e sábio, os dois se completando.

Pena que a “Biblioteca Paraibana” a ser lançada neste fim de ano pela SEC não inclua um volume dedicado a B. Rohan que reúna as 200 páginas da “Corografia”, os famosos relatórios, inclusive o da seca, e a Catequese, dedicada aos índios do Mato Grosso.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.