Não sei por que… essa notícia de usineiros inadimplentes me remete ao apertar-da-hora de 1964, à opressão psicológica, física mesmo, gerada pela ocupação militar de todos os espíritos a partir da madrugada aterradora de 31 de março.
Tudo ficou ocupado militarmente: a cordialidade do vizinho que bateu à janela assim que me viu; a oportunidade de emprego que os jornais antes me franqueavam; a solicitude de confiantes amizades; a confiança no gênero humano. Um soldado de riúna, todo encapacetado, enrijecido ao fuzil, instalou-se à frente das portas mais amigas, das fontes mais ternas. Os amigos olhavam-me com medo da lepra, lepra que eu havia adquirido no contágio com as Ligas Camponesas, na militância cívica da API, nas leituras transformadoras que eu tentava professar.
A terra e o céu passaram a ser dos usineiros. A terra já era. Pau e tortura comendo aqui embaixo, enquanto a usina levantava brinde nos quartéis, rica de créditos, de incentivos, e de todos os poderes.
Nesse tempo, as usinas só moíam cana para o açúcar. Veio a crise energética dos anos 70, boicote no Oriente Médio, e a cana foi enriquecida com mais uma utilidade: a de fonte renovável de energia. O projeto do álcool incluía também a mandioca — uma promessa de mudança de status dos mandioqueiros minifundiários de todo o Brejo — mas terminou protegendo apenas os generais da cana.
Resultado: donos de terra, donos de toda a demanda de açúcar do País e mais alguma coisa do exterior, donos do combustível de mais da metade da frota brasileira de veículos, além de exportadores privilegiados de melaço, com todos esses poderes e vantagens passam, agora, a levar maçada nos cartórios e nas ante-salas dos bancos, integrando a listagem dos títulos protestados, das falências legais ou fraudulentas e das inadimplências.
Sucessivas vezes a Saelpa cortou-me a luz, mas, felizmente, não botou meu nome no jornal anunciando a minha escuridão. A pobreza tem desses privilégios: corte de luz não é notícia. Já os usineiros estão trocando a coluna social pela dos caloteiros. Um dia é a inadimplência com a luz, outro com a água, outro com os impostos de todas as áreas.
Que foi que houve? As terras não foram divididas entre os camponeses, ao contrário, mais se dilataram na monocultura centenária, saindo da várzea para os tabuleiros, da extrema de Pernambuco à de Rio Grande do Norte, parecendo um partido único.
Os engenhos da colonização vitoriosa, alimentadores do Nordeste imperial e republicano, de repente engolidos pelos tentáculos avassaladores da usina. A usina que moeu o banguê, moeu o coronel José Paulino, moeu Zé Lins, moeu o Dr. Alexandre, o filho Augusto e saiu moendo terra e tempo afora até chegar a essa miséria de hoje: 300 crianças mortas para mil nascidas; dois por cento dos proprietários para 40 por cento das terras boas do Brejo.
Não houve revolução nem comunismo. É a usina se acabando por ela mesma, na hora mais imprópria que é a da onda privatizante.