A primeira saudade
24/06/2026

Nesse tempo Jesus existia. Começávamos a vê-lo atrás de casa, exuberante de ouro no pau-d’arco, nas flores de cheiro do caju, e terminávamos no caminho da igreja, uma travessia rica de cores e falas contentes.

Nessa caminhada as cores surgiam como se acabassem de ser inventadas, num gênesis cromático. Vestidos azuis, amarelos, encarnados, de vez em quando verdes, mas sempre azuis, amarelos e encarnados. Era assim que a estrada se povoava para a ida a Jesus, que era menino em Vitória e Guaribas e Cordeiro de Deus que tirava os pecados do mundo logo que se avistava a Igreja, do Alto dos Codoros.

Minha mãe:

“Deus, vos salve casa santa
onde Deus fez a morada
onde está o cálice bento
e a hóstia consagrada”.

E sem mudar o ritmo dos passos, quase um tropel, todas as mulheres benziam-se num amém geral, não maquinalmente, não por ouvir dizer, mas por terem de fato alcançado o alto de onde, verdadeiramente, avistavam Jesus.

Lá estava Ele, suspenso em seu nascente poder, a espargir o fulgor do sol que nos alumiava.

Zé de Dinda vinha-O vendo desde a saída de casa.

— Tás vendo Ele ali?

E também cheguei a vê-Lo, vaporoso, aureolando o sol, capuchos de nuvens formando a imagem alada.

Era aquela e não outra a entrada para a cidade de Davi.

“Disseram os pastores uns aos outros (era o que uma das mulheres lia enquanto caminhava): Vamos pois até Belém e vejamos isso que aconteceu e que o Senhor nos fez saber. E foram apressadamente, e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura”.

Direitinho o que se ia fazendo estrada afora, do engenho até aqueles cumes dos Codoros, de onde se avistava, resplandescente e fulva, a cidade de Davi, chamada Belém.

Nós, eu e Zé, tínhamos visto o Menino muito antes de avistar a torre do templo. Estávamos severamente advertidos de que lá onde Ele estava não se admitia conversa nem brincadeira, e que o Menino, apesar de menino, não esticava baladeira, não jogava castanha nem se metia em traquinagem.

A igreja: estava repleta, respirando quente, encandeando de todos os altares.

Nos tomaram pelas mãos e saíram nos arrastando, forçando a passagem no apertado de pernas em pé ou ajoelhadas. Víamos da cintura para baixo, batendo em cotovelos, topando em bancos, tropeçando em chinelas, pés descalços e sapatos. Súbito ergueram-me pelos braços e me apontaram:

— Está ali. Olhe Ele ali.

Naquela imposição ceguei. Não vi ali nem pude ver depois de homem, limitando-me à tênue lembrança de alguns capuchos de nuvens formando a imagem alada, uma imagem que nunca se definiu por mais que se repitam outras esculturas de gesso ou nuvens, vistas da terra ou das viagens aéreas.

Nunca mais vi o Menino. Nunca mais vi Zé de Dinda. Nunca mais me vi.

A estrada que leva a Belém, sito nos Codoros, até ela desapareceu. Como também as cores que a povoavam, azul de céu, encarnado de sangue, amarelo de manga, todas esmaeceram numa gama que é menos cor do que melancolia.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.