quarta-feira, 27 de maio de 2026
O que mudou
27/05/2026

A casa era na Alberto de Brito, perto do solar dos Amorim, no velho Jaguaribe.

Vivíamos sós, eu e D. Antonina, cuja morada em Alagoa Nova cansara de manter-se em pé, tornando-a inquilina compulsória de João Pessoa.

Da Alberto de Brito partiu a minha primeira experiência de eleitor. Título novo, foto nova, cidadão novo. O voto me fazia cidadão, pessoa da República.

Essa consciência vertia-se nos meus passos, que da esquina de casa até a seção eleitoral não foram menos cívicos e históricos do que os de Deodoro no Campo de Santana.

Está aqui o título, a rubrica da mesa eleitoral, garranchos azuis, que, visualmente fixos e inócuos estão acontecendo em passos, esperanças, ansiedade, como se o sol da manhã, o caminho da João Machado e a movimentação das pessoas coubessem animados numa perna de M ou no traço final do emaranhado caligráfico.

Como a guloseima de Proust, não estou diante de uma assinatura, de uma simples rubrica, mas de todo um retorno vivo e atual, à manhã da minha alma e da minha juventude num pingo de tinta que é um universo.

A conversa não é de 1954. Estão conversando agora. A fila é grande e as chapas são do tamanho de um cartão de visita, alvas, lisinhas, o candidato impresso em letras sensuais. O candidato está indo com a gente, no bolso, e o meu é Samuel Vital Duarte, a recomendação de D. Antonina casando com a admiração da minha preferência.

— Não esqueça de Dr. Samuel.

Interessante, Dr. Samuel nunca esteve lá em casa, não sabia onde eu morava e nem sequer se existia. Mas essa distância aumentava-lhe ainda mais o valor, o perfil de homem público, que por ser público, dispensava-se de intimidades.

Disse, no começo, que a casa era na Alberto de Brito. Era não. A casa continua na Alberto de Brito, o número é o mesmo, o mesmo chalé suburbano privado de forno e invadido de réstias. A rua, transitada de tantas eleições quanto as assinaturas do meu título, também permanece no lugar, sem qualquer edificação ou benfeitoria além de um supermercado.

Nas janelas ou portando os títulos, as pessoas é que não parecem as mesmas. Umas porque perderam as ilusões, outras porque já não precisam do repouso transitório das janelas.

Agora olho para o céu, retomo o caminho do voto e identifico-me como a única mudança. A mudança de quem continua na mesma seção, dobrando a esquina que não muda, mas hoje sem os passos cívicos nem a antiga emoção de integrar a República.

E até começo a gostar de coisas que antes detestava. Coisas como esta, de Gilberto Amado. “Na República Velha as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira… As eleições não prestavam, mas os deputados e senadores eram os melhores que podíamos ter”.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.