Rubens Falcão acha que o dois de fevereiro, centenário de A UNIÃO, era para ter sido feriado estadual, com repartições e comércio fechados, bandeira do Nego hasteada e as bandas de música em retretas gerais, desde a praça João Pessoa ao busto do Almirante.
Rubens Falcão não é jornalista, não é escritor, mas pertence a uma linha de pessoenses que fez o espírito nas melhores leituras. É um milico que sabe ler, que tem opinião própria, embora nunca se liberte completamente da viseira corporativa.
Foi ele quem me perguntou, há anos, qual a melhor página da literatura nacional e, como eu bobeasse, ele foi direto à resposta: o monstro universal e ansiosamente esperado da Pombinha, de O Cortiço. Esse monstro era uma aspiração coletiva, até que a moça de ar enfermiço foi buscar água na fonte, sentiu um certo torpor, um desfalecimento geral no corpo ainda impubescente e arriou na relva, sob a árvore mais próxima, o sol descendo em raios vermelhos por entre as frestas da grande copa. O sol lá em cima e um estranho filete a tingir a relva. Um sol que eu vim ver depois, muito depois, em Rashumon, clássico japonês.
Sem Faculdade, sem Universidade, frequentando o Lyceu, Rubens Falcão fez sua formação espiritual nas páginas de A UNIÃO, ouvindo falar nuns, lendo outros, acompanhando polêmicas e tertúlias. A cidade ou, mais particularmente, o Ponto de Cem Réis, fazendo diariamente a leitura coletiva dos seus ídolos, dos Carlos Dias, Álvaro de Carvalho, José Américo, Américo Falcão e, num período mais próximo de nós, dos Allyrio, Juarez da Gama Batista, Dulcídio, Wilson Madruga, Sá Leitão. Eram os nomes que formavam a cidade, que os acompanhava em letra de forma e a céu aberto, sob as marquises da rua Direita.
Havia uma perfeita integração entre o Ponto de Cem Réis e o jornal, entre a sineta que chamava para o painel de notícias exposto na portaria do jornal e o seu porteiro vitalício, preto retinto, sempre de branco como os mais elegantes amos e senhores.
Outros me falam de oratório: “A União é um oratório que, mesmo derrubado, não perdeu a sacralidade”. Era o velho Heráclito, tipógrafo, falando difícil.
Não é sem motivo que as abelhas remanescentes do velho cortiço venham farejar toda tarde em suas proximidades. Estão aposentados, não têm mais nenhuma matéria a compor ou a imprimir, e chegam diariamente como se o finado Zé Nunes, fiscal do livro de ponto, continuasse esperando por eles. Em todo pôr-de-sol lá estão João Grande, Figueiredo, Manuelzinho, Ferreira, Galiza, Cardoso, tantos e tantos, como se Juarez Batista ainda não tivesse encostado a porta e se retirado ou se dos bolsos de Manuel Costeira ainda saíssem vales.
Em frente à Igreja da Misericórdia os bancos da rua estão completos. Há um jornal imprimindo, sem dúvida. Ninguém falta ao expediente, todos estão cansados e pareço ouvir, de fato, alguém perguntar se o dia dois é feriado.
Arre de tanta canseira.