Em política, dificilmente o pedido vale pela sua importância ou necessidade, mas por quem o pede.
No governo de Braga pedi a conclusão da estrada que liga o asfalto da BR-101 à praia de Lucena. Não tenho terreno, casa e nenhum gosto pelo veraneio de Lucena. Mas achava que, do ponto de vista histórico e turístico, os 16 quilômetros de Lucena teriam mais repercussão nacional do que a R-230 e o Anel do Brejo de João Agripino.
É que na ponta da estrada, tocada apenas pelo mar, está a Igreja da Guia, onde tudo é exuberante: a cantaria do frontispício, da galilé, a entalha almofadada, a nave, enfim a mais portentosa expressão do barroco tropicalizado.
“Com 16 quilômetros, o governo terá feito uma estrada nacional” — argumentei cheio de razão artística e até com certos ares intelectuais.
Wilson deu calado por resposta, a Guia, com todo o seu esplendor, entrando-lhe por um ouvido e saindo no outro. Não me deu a mínima.
Quis censurar-lhe a insensibilidade mas logo me lembrei que outros artistas passaram pelo Governo, como José Américo, Ernani, Ivan e Burity, todos amantes das artes e do monumental, e a Guia prosseguiu no mesmo isolamento secular.
Afinal, que obrigações terá Wilson com volutas e concheados do tempo de D. João V?
Pego “A União” três anos depois e lá encontro o anúncio oficial de que a Guia será integrada ao asfalto nacional. O Governo do Estado vai completar a estrada de acesso a essa riqueza.
Constato, enfim, que o meu pedido sensibilizou o Governador. Entro na notícia e descubro, aos poucos, que não foi propriamente o meu pedido. Não foi a Guia a justificação da estrada. Foi o pedido do deputado Egídio Madruga. É o que diz o jornal: “O deputado Egídio Madruga disse ontem em Lucena que o governador autorizou a concorrência pública para a conclusão do asfaltamento da estrada que corta o município. Egídio esteve visitando suas bases eleitorais, etc. etc.”
Os motivos que o deputado alegou foram muito mais imperiosos. Deve ter falado em nome dos eleitores e do conforto de Lucena. Sem nenhuma habilidade, falei em nome de uma igreja velha, cheia de morcego, sem padre, sem missa e sem devoto.
De qualquer modo, indo ao eleitorado de Lucena chegaremos à Guia.
Mas ainda não foi dessa vez que se ganhou essa estrada.