quarta-feira, 22 de julho de 2026
Queimando o colesterol
22/07/2026

Dr. Ricardo Maia mandou-me andar. Há mais de ano, seu colega Manuel Jaime já havia passado essa mesma prescrição. Mas agora, Ricardo foi mais severo. Tenho que correr contra a velhice, seis quilômetros diários em sessenta minutos, marcha militar. Um, dois… um, dois… sem me rir e sem chorar. E sem acenar às camaradagens passantes.

Fazer isso na Lagoa é chatice: a mesma roda e as mesmas pessoas toda a vida… Mais monótono ainda na Praça da Independência, onde amigos e conhecidos da redondeza pagam penosamente igual penitência. Mais do que penitência: confissão muda de decadência. Afinal, não é mais a corrida de quem tem pressa em chegar, mas, de quem teme sair.

Prefiro ziguezaguear pelas ruas, depois de ter marcado a quilometragem a ser percorrida: Santa Catarina, Epitácio, Maximiano, Camilo, rodeando o Liceu, Duarte da Silveira, Bento da Gama, de novo Epitácio, retornando ao ponto de partida.

Mesmo assim, vário e diversificado, o percurso começou a saturar. Os vigias já consultam o relógio à minha passagem e os que não têm relógio me tomam como tal. Passei a cronometrar a vida dos outros. Não me agrada isso.

Melhor sair sem destino certo, ou melhor, cada dia com um destino diferente. Hoje aqui, amanhã ninguém sabe, como a vida mesma.

Estou nessas cogitações, andando, andando, quando, de repente, o problema desaparece. “Tenho que chegar na banca às 02:30 horas, os canhotos na mão esquerda e o apurado, tirada a comissão de tio Viana, na mão direita”.

A ordem do tio é não olhar para trás, não me entreter no caminho, não parar para conversas, desde que entregue os canhotos dos talões e o apurado exatamente às 02:30 horas.

Estou descendo o Alto do Seixo, marcha militar, passo o Hospital Pedro II, o campo do Treze, a Igreja da Guia, o Cinema São José, o baldo do Açude Novo e boto marcha de força para subir a Treze de Maio, atingir a Praça da Bandeira e esbarrar no Beco do 31, onde o preposto de Seu Veríssimo, o banqueiro, está na porta me esperando.

— O menino do véi Viana tá chegando!

Entrego o bicho, espero a conferência, e dou de volta com um papel de pule carimbado e assinado pelo velho Veríssimo.

Desperto com o grito do Jornal, já na porta de casa. Não no Alto do Seixo, onde o antigo O Rebate não chegava, mas aqui na Santa Catarina, distante 42 anos da corrida a que o tio me obrigava, a troco da hospedagem.

De qualquer forma, é mais rápido e confortável viajar no tempo do que no espaço.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.