Isaac, filho de João, voltou para lutar.
A frase leva jeito bíblico, tanto pelos nomes, pela brevidade do ritmo, como pelo tempo em que os Isaacs, filhos de João, vão e voltam para a luta.
Desta vez, entretanto, não é nenhum Isaac, filho de Abraão e salvo por algum anjo, mas Isaac, filho de João Pedro, assassinado num dos capítulos da reforma agrária acenada pelo governo de João Goulart.
Isaac tinha 14 anos quando foi tirado de casa, junto à mãe e mais dez irmãos menores, para ver o pai estirado na pedra do hospital de Sapé com um tiro no coração.
São três coisas que não me saem da memória: o coágulo que cobria todo o peito de João Pedro, na pedra do hospital; a fortaleza da mulher, cercada por todos os filhos, lá fora; e a circunstância de poucos dias antes eu ter falado com João Pedro, de passagem pelo Ponto de Cem Réis.
Visto assim, não tinha nada de líder. Na fala, nos trajes, no jeito de andar e estar confundia-se com qualquer trabalhador braçal. A pose era nenhuma, só reserva e aparente timidez. Nas concentrações de Sapé, o comício armado, ninguém o via no palanque com Julião, Assis Lemos, Joffily, o grande Osmar e outros líderes menores. Da vez que o vi, num domingo de grande comício, parecia não ser mais que um espectador, escorado na parede, a conversa mais calma e menos pretensiosa de toda a manifestação.
Quais eram, afinal, o seu trabalho e o seu discurso? Numa entrevista a Joana Belarmino, o filho Isaac traz à luz o que eu já desconfiava: “Foi um trabalho realmente muito difícil, porque ele tinha que conversar individualmente com cada um camponês para essa organização (as Ligas).
Naquela época também era muito difícil haver uma reunião de muitas pessoas, fato que era visto pelos grandes proprietários como um tipo de associação comunista.
Desse modo, o trabalho tinha que ser pessoal, de convencimento de cada um dos camponeses, e essa foi uma luta realmente admirável, porque durante anos e anos, homens como João Pedro, Pedro Fazendeiro e João Alfredo não tinham descanso em suas vidas”.
O comício de cinco ou dez mil pessoas era o resultado do seu trabalho de um em um. Era o trabalho da consulta diária: o que fazer com o gado do latifúndio solto em roça camponesa? O que fazer com a expulsão, a ameaça, a casa derrubada?
João Pedro era a voz que orientava, era a palavra de fé e de confiança para todas essas respostas.
Faz 25 anos tudo isso. Um quarto de século. Isaac volta ao Brasil, depois de todo esse tempo em Cuba, e diz que “encontrei o meu País nas mesmas condições (…) de há três décadas. Camponeses morrendo ainda na luta de terra para trabalhar, muitos meninos na rua pedindo esmola, muita gente desempregada e muito oportunismo de políticos de quase todos os partidos”.
Isaac vai ter mais decepções. Chega numa hora em que recomeçam os discursos eleitorais, que só não são repetitivos de 62 porque pioraram. E muito.
O Norte, 1987