quarta-feira, 15 de julho de 2026
Respeito humano
15/07/2026

O doutor Severino Batista do Nascimento, juiz da Vara da Fazenda Pública, mandou suspender o corte que os fornecedores de água e de luz tradicionalmente costumam fazer nas casas onde atrasam o pagamento. Por impropriedade, o jornal confundiu justificativa com parecer. Juiz, quando decide, não emite parecer, lavra sentença.

E é a sentença que eu desejaria ter vivido num fim de tarde dos anos cinquenta, número 322, da Maroquinha Ramos, Torre. Mas nesse tempo não havia Código de Defesa do Consumidor, embora não faltasse aos pobres de todo o gênero a garantia constitucional dos bens julgados essenciais, como água e luz. Nem havia código e eram escassos os juízes de sensibilidade social como o Dr. Severino Batista do Nascimento.

Eu disse ser a sentença que eu desejaria ter vivido. Aí, o tempo e o modo soam bem, mas são falsos. Sempre esperei essa decisão de algum justo do mundo. Esperei, particularmente, naquele fim de tarde, e espero, altruisticamente, neste frouxo começo de 1993.

A Saelpa daquele tempo chamava-se DSEC – Departamento dos Serviços Elétricos da Capital. Chegou a camionete, depois de buzinar e gritar para chamar a atenção da rua toda e passou o alicate na luz da casa. Éramos eu e Dona Antonina Freire Ibiapina, antiga senhora de terras, que perdeu o marido, as terras, e achava-se nessa hora sob arrimo de um revisor de A União. Não era para menos: corte da água, corte da luz, quando não os dois.

Nos baseávamos, compulsoriamente, no princípio da essencialidade: primeiro, o feijão; segundo, a farinha, o pão e o café; terceiro e último, a água e a luz. Nesse tempo, cortada a água, ainda restavam os chafarizes públicos. E na falta de luz, recorria-se ao querosene.

Mas meu maior problema não era enfrentar a escuridão ou a cruel zombaria dos vizinhos. A maior dor era enfrentar o rosto de minha mãe, que foi simples mesmo à testa de suas terras, mas que nunca perdeu a autoridade, nunca deixou de receber a vênia da rua em sua passagem para a igreja.

Abraçamo-nos um ao outro, a janela de trás aberta às vascas do crepúsculo, e não nos dissemos uma única palavra. Em vez de recriminar-me, os seus olhos (comumente enérgicos) me foram misericordiosos, olhos da Salve Rainha, “misericordiosos, esperança nossa, salve”.

Pois bem, era preciso que viessem juízes como o doutor Severino Batista do Nascimento, coerente não apenas com as suas raízes de menino de roça, também sem luz e pobre, mas com o espírito das grandes religiões, das grandes filosofias, para as quais o respeito humano está acima de todos os contingenciamentos de ordem ética ou econômica.

O DSEC ou Saelpa nunca me pagarão a conta daquela tarde. Pena que não haja um juiz com jurisdição e poderes para suspender outros cortes: o da mercearia e do remédio que os sócios do FMI, da Fiesp e da Associação dos Supermercados andam impondo a setenta por cento da família brasileira.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.