Li há algum tempo sobre o retorno de Nietzsche e vi-me na redação da antiga “A União”, neófito entre Sá Leitão, Juarez Macedo, Ronald Queiroz e José Nicácio Pereira.
Como me lembro! José Nicácio diante da máquina, o papel à espera do suelto e à sua esquerda a “Vontade de Potência”.
Já me iniciando nos manuais de vulgarização do marxismo dos Rosental e Iudin ou no ABC do comunismo, sob essa visão Nicácio me parecia um jovem de emoções retardadas. Eu fora convencido, sem nunca ter lido Nietzsche, de que esse cidadão não passava de um filósofo idealista, ultra-reacionário, apologista confesso da exploração burguesa (esta era a linguagem) e predecessor dos ideólogos fascistas. Era isto o que os manuais me diziam.
Agora, mais de trinta anos depois, ressurge uma nova onda nietzschiana, sublimada pela recriação recente desse Milan Kundera, um tcheco que os magazines literários ocidentais vêm comparando ao velho Goethe.
Kundera parte, em termos romanescos, da antiga ideia do eterno retorno de Nietzsche: “… pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente”.
Não estou certo se Robespierre voltará a cortar a cabeça dos franceses, mas certamente não é nova, nem primeira, a reação de certos homens ante a proposta de reforma agrária da Nova República. Esta e outras reações, tudo isto é um filme que já vem rodando muito antes do faroeste de George Stevens, “Os brutos também amam”.
A filosofia de Nietzsche, o eterno retorno e as reações à reforma, de repente se associam a um instante de sol alaranjado no balcão do antigo “Alvear”.
Recordo que eu levava a xícara a um novo gole, numa tarde de abril de 62, quando me dizem ao ouvido que “mataram João Pedro”.
Naquele tempo a reforma agrária vivia em estado de comício. Não havia tarde no Ponto de Cem Réis, sala de aula, auditório, associação, bodega de estrada nem terreiro rural por onde não perpassassem os gritos de Julião ou as palavras de ordem das reformas de base. Estudantes (sim, os estudantes), professores, políticos e camponeses entoavam, todos os dias, o mesmo coro.
Havia palavras e havia tiros. A cada tiro uma comoção generalizada nas ruas, nos recintos fechados, na imprensa. Não havia domingo em que Sapé não se povoasse, concentrada, com o afluxo de todas as Ligas.
Nas horas aziagas, no apertar-da-hora espoucava o tiro. O tiro era a resposta mais convincente da reação ao alvoroço revolucionário.
Na tarde do “Alvear” a pequena xícara fica suspensa com a notícia. Quem atirou?
João Pedro era o único líder calado de que tive notícia. Não aparentava ser ouvido. Não falava nos comícios nem nas grandes assembleias. Em meio aos camponeses não era mais que um camponês: rosto grosseiro, feições vulgares, sem fala e sem pose. Ninguém podia adivinhar a hora exata em que se fazia ouvir. Tudo o que se sabia era que liderava. Ia à frente. Essa atitude era a sua maior eloquência.
Aí veio o tiro.
Saltara do ônibus na estrada de Sapé, sol já se pondo, e tomara a estrada que o governo acabara de asfaltar por entre a cana da direita e os verdes minifúndios da esquerda. Na undécima curva, como um relâmpago de baixo para cima, aturde o tiro. Um tiro que penetra estreito no peito esquerdo e aflora, com chispas de carne, no meio das costas. Caem livros e cadernos de um lado e uma ponta de cigarro sai rolando, acesa, até engalhar no primeiro mato do acostamento.
Esforço-me para que esse quadro de repetições, descontados alguns componentes, não me deixe supersticioso. O novo grito da reforma agrária, tudo isso parece levar a uma reprise do antigo Plaza.
Se o eterno retorno ocorre em alguns casos, que não repita a tragédia de João Pedro, assim como não repetiu Robespierre.