Era véspera ou antevéspera de Natal. Nesse tempo ainda me tratavam por moço – “tem um moço aí” – quando eu batia palma à porta das casas.
Como ficou combinado, saímos da Praça do Carmo logo de manhã, eu e Nathanael Alves, desta vez para fecharmos – com o Roggers e a linha do Sanhauá – o périplo ambulatório que, há dois domingos, vínhamos fazendo pelo lado do mar.
Era o nosso melhor esporte, andar e ver, embora o chão dos nossos passos ficasse muito a dever ao verde pastoril das verdadeiras Notas de Andar e Ver de Azorin, mestre espanhol que naquela quadra tanto nos influenciava. Ele, Unamuno, Jiménez e o prodigiosíssimo Blasco Ibañez de Sangue e Areia e dos Cavaleiros do Apocalipse.
A escolha do Roggers também se dava por influência de leitura, um trecho das reminiscências de Kilder, inglês que andara por aqui ao tempo em que o Roggers era visto como ponto dos mais lindos da Paraíba, assim descrito pelo súdito de Sua Majestade: “Esplêndida vista marítima do Cabo e Forte de Cabedelo, a foz e o curso do rio, até o estuário”, tudo “em meio de um cenário magnífico”, comparado com “as planícies ao poente do Rio Gênesis, quando vistas do West Avon”.
Agora, sob pés brejeiros, a planície do Gênesis não conferia. Descambava no esgoto, na lama onde fuçam caranguejos, porcos e crianças e o lixo é servido como generosidade burguesa à mesa dos carentes.
Seguimos a linha do trem, descemos pela Ilha do Bispo, a lama dos casebres e a nuvem de cimento subtraindo dos aldeiados de hoje a terra e o céu que os fundadores haviam prometido. Nesta ilha dos anos sessenta não se via o céu e em nada sólido se pisava. Agora, com os filtros dos Brenand, é possível que o céu tenha limpado.
Mas cortamos pelo velho matadouro, atravessamos várzeas e riachos, indo chegar na Praça do Quinze, no alto de Cruz das Armas. Dali passamos a limpo o poema de Jomar, recém-saído, e entramos no Sítio de Jaguaribe. Jaguaribe de casinhas de palha, muito mais cobertas pelas cumeeiras verdes dos jambeiros, jaqueiras, mangueiras e frutas-pães que a pobreza plantou.
Saímos do verde e entramos num descampado que o Montepio abrira para levantar o bairro de Fátima, na Torre, casas certinhas a perder de vista.
É nesse ponto que a sede atacou-nos. Sede que água de pote não matava, pois bebemos da fria e da melhor duas ou três vezes.
- Que sede é essa, nego?
Foi quando avistamos, creio que atraídos pelo cheiro forte da agulha assada que o vento nos mandava, uma barraca de zinco
e palha que tinha tudo para dessedentar-nos. Estavam lá, bem à vista, a fritura e a geladeira. Corremos ofegantes para essa fonte no deserto. Deserto que estava em nós, na nossa secura interior, a fresca espuma da cerveja brilhando olhos nos e lavando as almas.
- Tens dinheiro? – lembrei-me de perguntar.
- Tenho não – cortou Nathanael.
E o mundo nos ficou devendo essa cerveja. Nathanael tomou muitas outras, até com tira-gostos melhores, mas jamais a que a vida nos pedia naquela véspera de Natal.