O tempo polvilhou de lodo o telhado que eu vi novo, enrugou meu retrato mais querido e – o pior de tudo – envelheceu minha crônica.
Em vinte anos a crônica já não serve, não diz coisa com coisa. Vejam o que pus num livro de 1978, com letras que escolhi romanas por imaginá-las duradouras: “O que me dá nervura, folha e ramo pessoenses é o ar de família, esse jeito de intimidade doméstica identificado até nos rostos desconhecidos. (…) Nesta cidade todos os rostos se conhecem”.
Haja hera e lodo! Quando escrevi isso a cidade me parecia realmente doméstica, de rostos familiares “tão domésticos e familiares que um band-aid na espinha suscitava indagações”.
Sabia-se de que viviam e onde moravam as pessoas. Tanto os ricos como os pobres, tanto Ávila Lins e Flávio Ribeiro como mestre Joaquim Pereira, de Jaguaribe e Nezinho Pintor, do Mercado Central. Nem se precisava do nome das ruas que, com exceção das Trincheiras, Tambiá, Direita, Nova e Maciel, tomavam o nome do morador mais conhecido ou ilustre. A rua do Dr. Osias, do Dr. João Medeiros, das Chiancas.
Era assim e pensávamos que fosse para a vida toda. Que as pessoas que saudávamos no tribunal, na escadaria do Liceu, na porta da Misericórdia, continuassem dando nome à rua onde moravam.
Mas não, os nomes sumiram com elas e os que sobramos já não temos quem nos cumprimente. A calçada é de Tambiá, mas todos os passantes são estranhos. Passam, somente. Não me notam, não me cumprimentam.
Conheço a casa, conheço todas as casas, ou melhor, elas parecem conhecer-me, me serem familiares, mas as suas portas e janelas já nada me falam, nem me acenam, nem me dizem nada.
No lugar de minha amiga, que estava sempre à janela, está uma placa enorme de acrílico anunciando a grife estrangeira.
Descubro-me sorrindo e gesticulando sozinho. Lembranças de Tambiá falam comigo enquanto aguardo o transporte no abrigo do ônibus.
Digo aguardo o ônibus, mas eram sempre os amigos que me avistavam de longe e me davam carona.
Era assim. Nunca dava tempo a pegar o coletivo, pois não faltavam as caronas de Ronaldo Minervino, Wilson Cardoso, Róbson, Zé Carlos Calvacanti, Américo Filho, Chiquinho do Pilar, Dudu Peixoto, tantos, tantos! Era como se houvesse combinado com eles a hora e o lugar.
“Tudo bem, neguinho?”
Não, não há ninguém me acenando por trás da placa de acrílico. Todos se foram sem volta. E não há, sequer, tráfego no sentido leste-oeste, do Hospital Santa Isabel em demanda do Astréa.
Agora o trânsito é em sentido contrário.
Sumiram os rostos conhecidos. É multidão, massa de Ibope, enchente sem nome a atravessar as portas das lojas num afã cego e desembestado. A cidade pessoal do meu primeiro livro não existe. Ou melhor: a cidade existe, a crônica é que envelheceu.