Ser conservador ou liberal é muito diferente de ser bolsonarista. Confundir essas correntes de pensamento com a devoção política a uma família é um equívoco que pode custar caro à democracia brasileira.
O conservadorismo defende a preservação das tradições, das instituições e dos valores sociais, admitindo mudanças lentas, graduais e prudentes. O liberalismo, especialmente em sua vertente econômica, valoriza a liberdade individual, a iniciativa privada, a livre concorrência e a redução da interferência estatal na economia.
O bolsonarismo, por sua vez, transformou-se num movimento personalista, com características de seita política, organizado em torno de uma família que parece ter substituído princípios doutrinários pela fidelidade incondicional ao seu chefe. Sua principal atividade não é apresentar soluções para os problemas nacionais, mas fabricar inimigos, espalhar medo e alimentar um permanente estado de guerra psicológica.
A família Bolsonaro nunca demonstrou compromisso consistente com o conservadorismo ou com o liberalismo. Jair Bolsonaro, que se apresenta como defensor da família tradicional, está no terceiro casamento e já fez declarações públicas vulgares sobre sua vida sexual, inclusive envolvendo o uso de apartamento funcional. Não é a quantidade de casamentos que desqualifica alguém, mas a contradição entre o moralismo exigido dos outros e a própria conduta.
Também é difícil identificar liberalismo econômico numa trajetória familiar construída quase inteiramente sobre mandatos, salários e estruturas do poder público. Além disso, Bolsonaro sempre manifestou admiração pelo regime militar brasileiro, cuja política econômica esteve longe do liberalismo puro: o Estado controlava setores estratégicos, intervinha na economia e regulava preços.
Mas o aspecto mais preocupante do bolsonarismo é sua intolerância à divergência. O líder não pode ser questionado. Suas contradições são justificadas, seus erros são transformados em virtudes e seus adversários são tratados como inimigos a serem destruídos.
Esse culto à infalibilidade tem antecedentes sombrios na história. Na Itália fascista, difundiu-se o lema “Il Duce ha sempre ragione” — o Duce tem sempre razão. Na Alemanha nazista, a autoridade de Hitler também foi revestida de uma suposta infalibilidade. No Brasil, setores do bolsonarismo reproduzem essa lógica com a crença de que Bolsonaro nunca erra.
Não se trata de afirmar que os movimentos sejam historicamente idênticos, mas de reconhecer o perigo comum do culto à personalidade, da submissão absoluta ao chefe e da rejeição ao pluralismo.
Por isso, conservadores, liberais e democratas de todas as tendências precisam abrir os olhos. O bolsonarismo não é sinônimo de direita, muito menos representa necessariamente os valores conservadores ou liberais. É um projeto de poder familiar que exige obediência e não tolera concorrentes.
O Brasil precisa de uma direita democrática, de um centro independente e de uma esquerda capaz de conviver com a alternância de poder. Nenhuma família pode se considerar proprietária do Estado, da pátria ou da vontade popular.
Com Lula em seu último mandato, caso seja reeleito, haverá espaço para a reorganização das diferentes correntes políticas em 2030. Sob a hegemonia de um projeto familiar que pretende se perpetuar no poder, esse espaço poderá ficar cada vez mais estreito.
Conservadores e liberais precisam compreender, antes que seja tarde: uma coisa é defender ideias; outra, muito diferente, é ajoelhar-se diante de um messias político.
A democracia admite conservadores, liberais, socialistas e progressistas. O que ela não pode admitir é uma nova tirania, seja qual for o sobrenome de quem pretenda impô-la.
