A direita de Renan Santos, o centro de Augusto Cury, o Centrão e os conservadores em geral precisam compreender o risco de se tornarem meros figurantes caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno das eleições presidenciais.
O projeto político da família Bolsonaro não parece se limitar a conquistar a Presidência da República. Seu objetivo, a julgar pela expansão eleitoral de seus integrantes, é construir uma dinastia política capaz de permanecer no comando do Brasil por décadas.
Não seria surpreendente que, nesse cenário, Flávio Bolsonaro ocupasse a Presidência da República, enquanto outros integrantes da família disputassem posições estratégicas no Congresso Nacional. Carlos Bolsonaro poderia ambicionar a Presidência do Senado, e Renan Bolsonaro, a da Câmara dos Deputados. São possibilidades políticas, não resultados assegurados, mas ilustram o tamanho da concentração familiar de poder que se poderia tentar construir.
Os demais partidos e lideranças seriam tolerados enquanto servissem ao projeto. Quem discordasse correria o risco de ser descartado. O Centrão, acostumado a participar de todos os governos, poderia descobrir que ajudou a construir uma máquina política destinada a reduzir sua própria influência.
O risco se estenderia ao Judiciário. Com a indicação de novos ministros ao Supremo Tribunal Federal, um eventual governo Bolsonaro poderia tentar ampliar sua influência sobre a Corte, embora as nomeações dependam de vagas e aprovação do Senado.
No campo econômico e social, o perigo seria igualmente preocupante. Programas como Bolsa Família, Pé-de-Meia, BPC, ProUni, Farmácia Popular e SUS poderiam sofrer restrições, cortes ou mudanças profundas, conforme as escolhas do governo e do Congresso.
A mesma orientação poderia ameaçar direitos previdenciários, salários do funcionalismo e o patrimônio público, abrindo caminho para privatizações de empresas estratégicas, como Petrobras, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, em benefício de interesses privados e do mercado financeiro.
Também preocupa o alinhamento político com Donald Trump e os Estados Unidos. Uma política externa subordinada aos interesses norte-americanos poderia comprometer a soberania brasileira e favorecer a exploração de nossas riquezas estratégicas em condições desfavoráveis ao país.
Nada disso é inevitável ou pode ser apresentado como um plano integralmente comprovado. Mas os sinais de personalismo, concentração familiar de poder e hostilidade às instituições democráticas justificam vigilância.
A direita democrática e o centro político deveriam refletir sobre uma questão fundamental: vale a pena ajudar a eleger um grupo familiar que poderá trabalhar para tornar seus próprios aliados dispensáveis?
O Brasil não pode ser transformado em propriedade hereditária de uma família. A Presidência da República não é um trono, o Congresso não é um cartório de parentes e o Supremo Tribunal Federal não pode se tornar instrumento de interesses particulares.
A democracia existe para garantir a alternância do poder, não para permitir que uma oligarquia se eternize nele.