“O que poderá alguém [receber] em troca de sua vida.”
Mateus, 16
Na mesa ao lado, algum solitário sopra uma vela imaginária, abraça-se e entoa a canção de parabéns para si mesmo. Em seguida, passa-se, cerimonialmente, a palavra e faz o discurso do seu maior admirador.
Vou terceirizar a minha vida social e privatizar a minha vida particular, para consentir com a minha ideia de liberdade!
Deixarei de lado as comparações, os desejos e as ânsias. Estas vão para o lixo! Não quero que sirvam a ninguém, nem para ninguém.
Tenho, daqui a pouco, 64 anos. Puxarei da eternidade, sem medida, aquilo que vinha sendo conduzido, até aqui, pela esperança e pelos sonhos, calculadamente, desde o paraíso. Quem me projetou o milhão de horas, que me perdoe.
Matriculei-me na Escola de Desaprender. Já recebi as notas: todas são excelentes; só me exigem que, ao final, estejam todas zeradas.
Daqui, levo mantras, rezas, lágrimas e algumas conversas.
Todos os meus amores — até os que não pude recompor — ficam. Serei mais orgulhoso, neste campo: amarei a todos, próximos e distantes, e a tudo, como amo a mim mesmo.
A beleza que nunca tive, quando me via no escuro da solidão, também fica. Comigo vai a beleza especular: não para mostrá-la a ninguém, como já se disse, mas para deixá-la em companhia da solidão, quando esta, sozinha, não me bastar à dimensão da felicidade.
Isto, por hoje. Nem sei se amanhã assumirei que sou ator de minha própria autoria.
Beijos!
Eu, o garçom e … aplaudimos.
Ele desaparece, como a Rosa de Paracelso.
De Ampulheta de Estrelas
Aniversário — Página 64
Não se planeja um —
aniversário.
A data é um corte natural —
e necessário,
que o tempo oferece à vida —
relicário
do curso dos fatos —
precário,
do qual você é apenas —
locatário.
Sobram-lhe as eras —
e o erário,
para uma história —
fabulário,
resumo de toda a vida —
sumário.