quarta-feira, 8 de julho de 2026
Professores
07/07/2026

Aos mestres, com carinho.

Há uma hipótese, sensível apenas aos que creem, inspirada nos princípios vaishnavas sobre a originalidade, segundo a qual Deus é o todo que se mantém íntegro em qualquer parte.

É assim que se compreende a antiga afirmação de que há Deus em tudo: nada escapa à manifestação da divindade.

Nessas circunstâncias, o tempo deixa de ser uma sucessão de passado, presente e futuro. Torna-se um presente contínuo, como um eterno gerúndio da existência.

Quando Onaldo me avisou de que seus pais, Onélia e Queiroga, estavam no shopping desfrutando de um sábado merecido, eu ainda bebia as primeiras cervejas no bar. Mas precisava tanto vê-los, que não poderia impedir aquele encontro. Fui.

Nas últimas vezes em que nos encontramos, brincávamos com as lembranças e pintávamos o passado com as cores vivas do instante.

Conheci-os na Escola de Direito da Paraíba. Meu instinto imprevisível chamou a atenção do ilustre professor de Direito Civil, radicalmente dedicado à disciplina. Leoninos, indomáveis, acabamos por nos complementar.

Queiroga sempre registrou o cotidiano como quem escreve contos. Nenhuma imagem lhe parecia indigna de memória. Da infância pelas ruas de Pombal ao estudante em Recife; do jovem juiz em Bonito de Santa Fé à Presidência do Tribunal de Justiça, tudo parecia gravado em filmes invisíveis.

Era como se houvesse um gravador dotado de uma memória infinita.

Lembro-me das conversas na Fazenda Acauã, entre Sousa e Pombal, onde cada parente surgia em sua narrativa como uma estrela de uma constelação sertaneja.

Recordo os dias da Escola de Direito do Recife, os companheiros Deoclécio, Raphael e Plínio, o respeito quase reverencial ao irmão mais velho.

Depois, a posse na primeira comarca, dividindo uma república como nos tempos de estudante.

Mais tarde, o juiz de Catolé do Rocha, surpreendendo até os próprios servidores para impedir o vazamento de mandados.

Vieram a capital, os processos rumorosos, os desafios da magistratura — uma vida pretoriana vivida como algodão entre cristais.

Ao mesmo tempo, o magistrado permanecia aberto ao novo, entre os primeiros a abraçar a informática quando tantos ainda a olhavam com desconfiança.

Onélia, por sua vez, sempre foi uma festa.

Ou, dizendo melhor, nunca houve cena em que participasse sem assumir naturalmente o protagonismo — e montar um palco.

Foi minha professora de Direito Penal, mas sua docência ia muito além da sala de aula. Incentivava pesquisas, seminários e o prazer da descoberta.

Pesquisadora incansável, aprofundava-se com o mesmo entusiasmo tanto nas biografias dos músicos quanto nas minúcias da ciência jurídica.

Em Brasília, eram hóspedes frequentes. Saíamos dos tribunais, das repartições e das solenidades para aquilo que realmente nos divertia: feiras, cafés e longas conversas, já livres das formalidades das togas e dos ternos.

Quando meu filho Ely nasceu, levei-o ao Tribunal poucos dias depois. Ia registrá-lo.

Passei antes no gabinete do desembargador Queiroga, deixei o menino por alguns minutos e fui ao cartório, próximo à entrada do antigo TRE, acompanhado de Jair Pereira.

Ao voltar, encontrei Ely nos braços das servidoras. Já lhe haviam trocado a roupa, e ele era embalado por elas.

Queiroga recebeu-me com uma repreensão bem-humorada:

— Onde você estava?

Expliquei que fora providenciar o registro.

Ele respondeu imediatamente:

— Devia ter me chamado para assinar como testemunha.

Noutra ocasião, já Presidente do TRE, cheguei ao gabinete sem perceber que era o centro de uma aposta silenciosa.

Sobre sua mesa havia um aparelho estranho, cheio de peças móveis.

Ali estávamos Queiroga, Alcides Jansen e eu.

A dúvida era apenas uma: eu mexeria ou não no objeto?

Não resisti.

Em poucos minutos já estava quase desmontando o “bicho”, enquanto os dois riam discretamente da previsibilidade da minha curiosidade.

Fui fazendeiro ao lado dele e do Dr. Segundo Maia. Eles sustentavam a terra ao custo do afeto. Eu tentava resistir, não apenas às despesas, mas, sobretudo, à inclemência da natureza, que ambos pareciam tomar como estímulo. Deixei a função. Eles permaneceram — por si ou pela descendência. São o que Euclides chamou de fortes.

Talvez tenha sido justamente essa relação, construída numa espécie de paternidade adotiva, que me tornou mais relutante em visitá-los nos últimos tempos.

Há afetos cuja grandeza também exige coragem.

Hoje, ambos transcenderam as próprias histórias e vivem cercados pelas imagens que construíram ao longo da existência, colhendo os frutos do paraíso doméstico que semearam.

Em algum ponto desse todo — a que alguns chamam multiverso e a literatura canônica prefere chamar paraíso — eles continuam contando histórias de uma família na qual filhos e netos cuidam, com delicadeza e gratidão, daqueles que um dia lhes ensinaram a viver.

Foi assim que saí daquela visita.

Não com a impressão de ter encontrado dois antigos professores.

Mas com a certeza de haver assistido a mais uma aula.

Aprendi, naquela tarde, que ensinar é uma forma de semear eternidades. Um dia, a lição retorna em silêncio, nas mãos dos filhos, no carinho dos netos, na paz da velhice e, permito-me acrescentar, na amizade.

Talvez essa seja a última disciplina do magistério: aprender que ser cuidado é apenas a continuação de uma vida inteira dedicada a cuidar da formação dos outros.

Devo aquele sábado ao cuidado de Onaldo. Há filhos que também ensinam os amigos a agradecer os pais.

E então compreendi melhor a ideia com que comecei estas linhas.

Se o tempo é um presente contínuo, os mestres jamais pertencem ao passado.

Continuam presentes.

Continuam ensinando.

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