O drible é brasileiro.
Desde o Pré-Sal, comparam-se o Brasil (oficial) e a Noruega.
O Brasil das autoridades ergueu-se sobre a apropriação do que a natureza e a cultura oferecem ao povo. Diz-se representante desse mesmo povo, quando, na verdade, é apenas intermediário da feira.
Na Noruega, onde país e povo parecem caminhar na mesma direção, os recursos naturais foram convertidos em riqueza pública duradoura. O Brasil, ao contrário, estimulou um dos maiores escândalos de corrupção de sua história e naturalizou a imoralidade. Perdeu até parte do respeito por si mesmo.
A última esperança popular de lazer ainda era o futebol. Os “hipódromos”, aqui chamados de estádios ou arenas, custaram fortunas. Somados aos gastos públicos com outras festas, representam recursos que poderiam ter reforçado hospitais e escolas.
Assistir aos jogos tornou-se uma espécie de anestésico da realidade.
Esse Brasil oficial vive num universo paralelo, com pautas completamente distintas das do país real.
As instituições brasileiras já quase nada têm de Brasil.
Até a CBF, outrora CBD, por movimentar enormes recursos, acabou incorporada ao mundo oficial, geralmente ligado à parentada.
Aliás, a parentada — de sangue, política ou corporativa — talvez seja o maior mal brasileiro.
O Brasil perdeu para a Noruega numa Copa do Mundo. Mas perde para ela há muito mais tempo.
Nunca demorou tanto para conquistar um novo título mundial: já são seis Copas consecutivas sem levantar a taça.
Dizem que isso ocorre porque retiraram do futebol brasileiro justamente aquilo que lhe era próprio: a ginga de Didi, Garrincha e Ronaldinho Gaúcho, substituindo-a por um modelo importado, sem raízes locais.
O drible é brasileiro.
Até a crítica esportiva saiu de José Lins, Nelson Rodrigues, Graciliano e Saldanha para vozes que falam sem ver o jogo. Os Geraldinos já não existem; acabaram junto com as gerais. Os Arquibaldos ainda resistem nas arquibancadas, mas os camarotes passaram a comandar o espetáculo. O futebol passou a ser explicado de cima, por quem raramente pisa o gramado da alma do jogo.
Há mais narradores odientos, cujo enfoque é estritamente pessoal.
Do ponto de vista das regras, isso é falta. Tem que ir na bola. Análise fora da bola é inveja.
Neymar é a vítima mais nova. Porque cresceu à revelia do sistema e se deu bem no negócio em que se transformou o futebol, sem compartilhar os jabás, tornou-se alvo fácil. Some-se a isso o fato de não ter aderido ao discurso político predominante entre parte da elite cultural.
Pelo mesmo vício de parte da imprensa nacional, um repórter brasileiro foi admoestado publicamente por Cristiano Ronaldo sobre a postura profissional esperada de um jornalista. O episódio ganhou repercussão mundial, impulsionado pelos mais de meio bilhão de seguidores do jogador. Até nisso conseguem vender-se mal.
A internet é outra prova dessa transformação.
Cazé mostrou que já não existe monopólio da transmissão. Sem pedir licença, um garoto conseguiu romper um domínio histórico sobre os jogos.
As redes também romperam o monopólio dos fatos. Hoje, cada fato circula imediatamente, antes mesmo que alguém consiga enquadrá-lo numa narrativa pronta.
A bola está sempre rolando. A bola não pode parar.
Como os fatos pertencem ao presente, ninguém consegue monopolizá-los por muito tempo.
Críticos, intelectuais e parte da imprensa perderam o monopólio da narrativa e, não raro, procuram estabelecer-se como narradores do vazio.
Como na Revolta de Nika, parece crescer o cansaço diante das narrativas imperiais que procuram explicar tudo e absolver sempre os mesmos.
Pela narrativa autorizada ao carimbo, buscam-se culpados. Afinal, a culpa deixa de decorrer dos fatos para tornar-se propriedade da própria narrativa, que se julga no direito de distribuí-la conforme lhe convém.
O Brasil perde para a Noruega há muito tempo — e não apenas no futebol. Em quase todos os campos institucionais, ambos ocupam extremos opostos. Na corrupção, por exemplo.
O que permanece semelhante é o povo.
O povo brasileiro vive na realidade, assim como o norueguês.
A diferença é que, na Noruega, o mundo oficial também vive nela.
Ontem, a Vitória perdeu.
Para o Brasil ganhar, basta o futebol voltar a ser brasileiroe o país oficial refletir a nação.
Em outubro, espera-se, o povo escolha defender-se para ganhar.
*P.S. A Revolta de Nika foi uma insurreição popular ocorrida em Constantinopla, em 532, durante o reinado do imperador Justiniano. Nascida das facções do hipódromo, ultrapassou o universo das corridas de bigas e transformou-se numa revolta contra o poder imperial, chegando a ameaçar o próprio trono. O grito “Nika!” — “Vence!” — deixou de ser um brado esportivo para tornar-se o clamor de um povo cansado das narrativas do Império.
