Um povo inteligente aprende com os erros alheios — e comete os seus próprios erros.
O Brasil que ingressa no universo digital — o da inteligência artificial e do conhecimento universal — continua preso ao mesmo modelo político de décadas atrás. Não reúne as mínimas condições para competir nesse novo mundo porque insiste em repetir a si mesmo.
Todos os obstáculos são erguidos pelo mundo oficial. Estamos, a rigor, sendo conduzidos ao precipício, como aqueles porcos do Evangelho que incorporaram os maus espíritos expulsos de uma criatura indomada, que vivia entre os túmulos.
Enquanto a internet e a inteligência artificial inauguram uma nova civilização, o Brasil insiste em discutir o futuro a partir de crises domésticas e dos mesmos sobrenomes que governam o país, direta ou indiretamente, há séculos.
Não há a mínima tentativa de um erro novo.
No governo, a pauta política parece frequentemente reduzida ao núcleo familiar do presidente. Na oposição, disputas entre familiares do ex-presidente ocupam espaço que deveria pertencer às ideias. Há Estados onde a política se tornou tão doméstica que a confusão não consegue sair da cozinha para a sala.
Tensionando a análise e olhando um pouco mais para trás, vê-se um país que aceita passivamente sua desindustrialização para voltar à condição de exportador de produtos primários, enquanto importa tecnologia, inteligência, valor agregado — e bugigangas, como os antigos espelhos do colonizador para o nativo.
O debate político continua dividido pelas mesmas paixões do século XIX, apenas abrasileiradas. Ou, como dizia um velho político paraibano, há os que comem e os que querem comer.
São, em larga medida, os mesmos nomes e os mesmos sobrenomes.
À revelia desse espectro oficial, existe outra nação: o Brasil real. É o Brasil que trabalha, empreende, programa, estuda, cria empresas, desenvolve tecnologia, ganha, perde e tenta escapar das armadilhas produzidas pelo governo e por suas instituições, cujas pautas frequentemente não passam de cópias corrompidas de modelos estrangeiros.Empreender é uma façanha que somente osempreendedores compreendem.
Enquanto isso, o espaço público continua absorvido por disputas pessoais, familiares e corporativas que pouco dialogam com os desafios da inteligência artificial, da produtividade, da inovação e da economia do conhecimento. Há, inclusive entre autoridades, uma inquietante proliferação de analfabetismo funcional.
O efeito talvez mais grave seja outro: a erosão silenciosa do respeito. O povo já não reage apenas com indignação; reage também com vergonha e, não raro, com um certo asco das instituições que deveriam representá-lo. Quando uma sociedade deixa de admirar suas autoridades, começa também a desconfiar da própria autoridade.
Houve um tempo em que a simples suspeita de desonestidade encerrava carreiras públicas. Hoje, acusações de corrupção, improbidade, abuso de poder ou enriquecimento ilícito parecem perder força à medida que se repetem. Não é que a sociedade tenha deixado de distinguir o certo do errado; é que parte do mundo oficial parece já não se importar com esse julgamento.
O estágio mais avançado da decadência institucional não é a corrupção. É a perda da vergonha.
Uma autoridade que deixa de temer o juízo moral da opinião pública já não governa pelo exemplo. Apenas exerce o poder. E, quando o poder já não precisa preservar a honra, a dignidade deixa de ser um requisito para tornar-se um detalhe.
O Brasil oficial tornou-se pesado demais para o Brasil real.
Essa convivência talvez tenha chegado ao limite.
Ou o Brasil real reforma profundamente o Brasil oficial, contemporizando-o, ou o Brasil oficial continuará desmontando, um a um, todos os Brasis — do povo.
