Soldados, esse homem era a história deste país
Ontem morreu meu amigo, vizinho e herói. Seu Nestor tinha 108 anos.
Morávamos no mesmo Bloco G da 312 Sul, em Brasília. Durante anos, vi-o chegar e partir pelas mesmas calçadas. Da varanda do apartamento, eu gritava seu nome em saudação. Ele respondia com um sorriso largo, daqueles que dispensam palavras.
Hoje, porém, não me vem primeiro a imagem do homem. Vem-me a música.
Desde menino, aprendi com meu pai a gostar dos dobrados militares. Ele pertencia àquela geração saudosista dos homens que assistiram às grandes transformações do Brasil após 1930. Havia nos dobrados algo que o emocionava profundamente. Quando os ouvia, parecia conversar com os mortos ilustres da sua memória.
Por isso, os aniversários de Seu Nestor eram acontecimentos especiais. A 312 Sul despertava ao som da Banda do Exército. As janelas se abriam, os moradores saíam às varandas e os metais enchiam a manhã de solenidade. A nossa quadra transformava-se, por alguns instantes, numa extensão da memória nacional.
Eu gostava de vê-lo perfilado, o peito coberto de medalhas, a postura ereta, o sorriso tranquilo e aquela humildade característica dos homens que fizeram muito mais do que contam. Havia ainda uma brincadeira entre nós. Eu o chamava de Marechal de Espada Fulgurante. Ele ria. Eu queria apenas distinguir os homens que ouviram falar da guerra daqueles que a conheceram. Seu Nestor não possuía espada virgem. A dele fora acesa nas batalhas da Itália.
Entre os dobrados e canções executados pela banda, havia duas que sempre me comoviam. Uma era o hino da FEB, resposta brasileira à ironia de que seria mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. A provocação virou símbolo. A cobra fumou. E jovens brasileiros atravessaram o Atlântico para combater o nazifascismo nos campos da Itália. A outra era “Você sabe de onde venho?”, que parecia resumir a própria vida daqueles homens.
Seu Nestor era um deles. Lutou em Monte Castelo. Lutou em Montese. Viu a guerra de perto. Conheceu o frio, a lama, o medo e a coragem. Mas, para mim, sua maior vitória não estava nas campanhas militares. Estava na vida que construiu depois delas.
Lembro-me de uma história que o define melhor do que qualquer condecoração. Ele e Dona Neiva caminhavam juntos à missa costumeira do domingo, como sempre fizeram ao longo de quase oitenta anos de casamento. Ela tropeçou. Antes que tocasse o chão, Seu Nestor amparou sua queda com o próprio corpo. Ela saiu ilesa. Ele quebrou o braço. Ali estava novamente o soldado. Não diante de uma metralhadora. Não diante de uma trincheira. Mas cumprindo a missão de proteger.
Fui à comemoração de seus cem anos no Quartel-General do Exército. Vi os velhos camaradas. Ouvi os dobrados. Ouvi também “Tão Grande És Tu”, executada por uma pequena banda marcial. Vi continências, abraços e lágrimas. E compreendi que aqueles homens carregavam algo cada vez mais raro: a memória viva de um tempo em que a liberdade teve preço e exigiu sacrifício.
Agora, Seu Nestor partiu. A banda silenciou. Os desfiles terminaram. Mas sempre que eu ouvir um dobrado militar, sempre que escutar “Você sabe de onde venho?” ou “Tão Grande És Tu”, voltarei a vê-lo atravessando a entrada do Bloco G, sorrindo para os vizinhos, cercado pelos filhos, netos, bisnetos e trinetos.
Sempre guardarei uma imagem infantil. Vejo aqueles soldados conversando nas montanhas da Itália, falando de suas terras distantes. Um deles haverá de dizer: ‘Eu me chamo Nestor. Venho das Alterosas
E então me lembrarei de que os heróis verdadeiros não vivem apenas nos livros de História. Às vezes, moram no apartamento ao lado. E passam a vida inteira nos ensinando, sem alarde, de onde viemos.
Como dizia o papai: Feras que foram homens!
