quinta-feira, 16 de julho de 2026
Amar é saber
16/07/2026


O que difere o amor do poder é que o amor não tem poder — e o poder não tem amor.


Conheci-os na Praça Camões, quando eu recitava à gravação um poema sobre Lisboa e os seus caminhos de ver. Era um casal. Eles não se apresentaram a mim, individualmente, mas a todas as pessoas circulares. Eu era uma delas.
Não ouvi o relato desde o princípio, como convém para conhecer o enredo. Sei que falavam de uma abordagem da polícia política, por força de uma ordem judicial contra eles determinada.
Pela ordem, o crime era verbal, de palavras, de opinião, de expressão e — pasmem — de pensamento.
Do acervo colhido à ordem da sentença armada, havia uns textos de filosofia, de cujo teor reclamava a polícia para entender. Escrito em grego antigo, com evidentes interpolações latinas posteriores e rabiscos de desenhos explicativos, o texto era impossível à leitura comum.
Sem mais forças para esclarecer, o casal teria respondido em coro à tirania da ordem:
— Isso não é pornografia: é um registro antigo de desenhos do filósofo Leucócito de Leucemia, um dos maiores nomes da filosofia em quadrinhos da Grécia antiga. Ele fazia par com Hemácia de Anemia, grande nome feminino da filosofia das Artérias Aortas, uma região muito antiga situada próxima ao Cardius Pontus, na Diastólia.
Após consulta ao ínclito e excelso magistrado, eles deixaram os papéis; eram inservíveis.
A que ditadura eles referiam-se, eu não soube.
Mas a conversa prosseguiu.
— Quem é Leucócito de Leucemia? — perguntou um senhor de chapéu.
— Filósofo pré-cardiopôntico da escola diastólica.
— Ah…
— Discípulo indireto de Hemácia de Anemia.
— Entendo…
— Fundadora da metafísica das Artérias Aortas.
— Naturalmente.
Uma senhora que alimentava pombos aproximou-se:
— E qual era a principal tese de Leucócito?
— A circulação das ideias.
— Como assim?
— Segundo ele, toda ideia nasce numa extremidade do corpo social, percorre os capilares da linguagem e regressa ao coração das instituições.
— Fascinante.
— Foi perseguido por isso.
— Por quê?
— Acusaram-no de insuficiência argumentativa.
— E era verdade?
— Não. Era apenas um sopro.
Outro curioso aproximou-se:
— E Hemácia?
— Hemácia defendia a existência dos glóbulos conceituais.
— O que são?
— Conceitos que transportam significado para regiões intelectualmente anêmicas.
— Isso existe?
— Foi exatamente essa pergunta que provocou a Grande Hemorragia Dialética da Diastólia.
Os presentes silenciaram respeitosamente.
— Houve mortos?
— Centenas de argumentos.
— Meu Deus!
— Alguns chegaram a ser transfundidos para outras correntes filosóficas.
Foi então que alguém quis saber:
— E quem era o ditador?
— Plaquetus Trombonius.
— Nunca ouvi falar.
— Governou durante a famosa Trombose Institucional da Diastólia.
— Ah…
— Período muito difícil.
— O que aconteceu?
— As ideias deixaram de circular.
— Por censura?
— Não. Por coagulação.
— Entendo.
— Foi quando o Marechal Endotélius publicou o Edito das Veias Fechadas.
— E o povo aceitou?
— Parte aceitou. Parte sofreu isquemia intelectual.
Novo silêncio.
— E o juiz?
— O juiz era o excelentíssimo Arterius Coronarius.
— Era homem severo?
— Muito.
— Como julgava?
— Pelo fluxo.
— Fluxo?
— Se a opinião circulasse demais, ele considerava perigosa.
— E a polícia? — perguntou alguém.
— Comandada pelo Comissário Leucocitov, primo distante do filósofo. Sua função era combater infecções argumentativas.
— E encontrou alguma?
— Nunca. Eram medidas preventivas — contra a possibilidade de encontrar alguma coisa.
A essa altura, até os pombos pareciam acompanhar a exposição.
— E os manuscritos? — perguntou alguém.
— Foram encaminhados ao juiz.
— E ele compreendeu?
— Não.
— Então?
— Encaminhou ao ditador.
— E o ditador compreendeu?
— Menos ainda.
— Então por que apreenderam os textos?
— Justamente por isso.
— Por não terem compreendido?
— Naturalmente.
— E depois?
— Depois concluíram que eram inservíveis.
— E os devolveram?
— Não.
— Por quê?
— Temiam que alguém os entendesse.
Ninguém respondeu.
O casal seguiu o seu caminho. A senhora recolheu o saco de milho dos pombos. O homem do chapéu consultou o relógio. Eu desliguei a gravação do poema.
Quanto aos manuscritos de Leucócito de Leucemia e Hemácia de Anemia, não sei que destino tiveram. Mas, se ainda estiverem apreendidos, provavelmente continuam sendo examinados pelas autoridades.
Há coisas que demoram muito a ser compreendidas, sobretudo quando foram perfeitamente entendidas.

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