Procura-se(Retrato Falado)
09/05/2026

Para minhas irmãs e minhas filhas, com um beijo de Feliz Dia das Mães.

Procuro uma mulher cuja imagem não consigo recuperar, com quem convivi pelos primeiros três anos de vida. Não ofereço retratos, mas posso dar características que a distinguirão e que me foram repassadas por parentes, amigos e convivas.

Ela tem estatura e beleza comuns à sertaneja. Para alguns, seus olhos e cabelos em caracol não têm o mesmo significado da minha pouca lembrança tátil; sabe cozinhar bem e faz um peixe ou um bode com gosto especial, conforme meu pai; é cantora de benditos e não perde missa aos domingos — é fatal encontrá-la nas filas da confissão e da comunhão; não disputa nada com ninguém e considera o destino uma providência divina; teve instrução básica em convento, de onde herdou o apelido; aprendeu o bastante para ensinar meninos em casa, entre pitadas de sal e danças com a vassoura; a mania de limpeza beira a patologia; está sempre com um lenço na mão ou na cabeça, escondendo uma enxaqueca genética; chama os mais próximos por apelidos, transferindo situações da infância: Zeca de Raimunda, Jabapavela, Rufino, Oião; não gosta de ser fotografada — vira o rosto ou disfarça com a mão, protegendo a alma; adora conversas ao redor do café, notadamente com gente simples como ela; fala do Riachão dos Cabrais, onde nasceu; de um pé de juazeiro, em Mararupá, onde casou; do Jatobá, onde viveu; dos sete filhos que deixou (Conceição, Oscar, Amélia, Iraneuza, Iacira, eu e Neto) e de um certo Painho, cujo nome verdadeiro é Irapuan de Vasconcelos Sobral, seu esposo.

Seu corpo foi visto pela última vez em uma caminhada, sob uma ária estranha, sendo levado para o cemitério do Barro, no Ceará. Conta-se que, naquele dia, sol e lua dividiam o clarear da estação seca, mas invernal, e o vento soprava canções entre os bambus retorcidos de um lago próximo, formado por lágrimas da chuva.

Atende pelos nomes e apelidos de Badia, Neuzinha, Dona Neuza e Mainha.

Nas minhas buscas, encontrei outras parecidas com ela, muitas vezes sem gozar felicidade e o tratamento merecidos, mas nunca encontrei igual. Parece um valor que somente pode ser medido pela ausência.

Outro dia tive a sensação de tê-la me segurando nos braços; senti a plenitude da felicidade, até despertar de um lindo sonho delirante.

Hoje, ela teria 99 anos, os cabelos brancos — quase azuis —, a vista fraca, e espalharia imagens em desejos e memórias de tantos quantos a viram.

Seu esposo, dois filhos e uma neta já lhe encontraram na glória. Do paraíso, é mãe de sete filhos, avó de 22 netos e 22 bisnetos.

É minha mãe.

Estou longe dela e a procuro desde a mais tenra infância. Por ela eu creio no dia pleno sem ausências e lembranças. Quando os tempos terminarem em mim sua contagem, creio que serei reconhecido no portal do paraíso e que a reconhecerei pelos cabelos e olhos.

Creio… para encontrá-la.

Rezo pelos que têm uma mãe e espero notícias da minha, para mim ou para os nossos, que também não têm imagens dela e, como eu, estão nessa busca incessante.

Amém.

PS.: A enxaqueca já chegou a mim — e trouxe a labirintite. Posso concluir que estou perto de vê-la.

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