O afeto não se quita à conta
Dicionário de Exceções
A garagem do velho Sobreira parecia aqueles sótãos de filme: cheia de curiosidades. Ele, o proprietário — um senhor de riso fácil, que parecia entender os nossos medos — cobria-se com a fumaça do cigarro forte e personificava mistérios.
Para completar a cena, usava, ostensivamente, uma arma na cintura — e tinha um Jeep antigo, de modelo que a gente só via em fotografias da Grande Guerra ou nos filmes.
Seu Sobreira era um personagem da gente; gostava de conversar comigo. Lembro do tom melódico da voz dele, com agudos pousados sobre os graves. Tratava-me com o carinhoso “Fuenguinha”, mas eu recebia aquilo como ordem.
É que Seu Sobreira era da polícia e, diziam os meninos — à minha fé — que ele tinha lutado com Lampião. E ele, de fato, se vestia com aquela roupa cáqui que carregava o tempo no tom de meio-dia solar: estava sempre presente.
O Jeep era uma relíquia. Nas poucas vezes em que saiu da garagem, parecia que quem se movia eram as ruas e a cidade, e que o carro ficava parado, à espera de quem quisesse vê-lo — desde que se deslocasse dentro daquele espaço ilusório.
Alguns rapazes, na desordem, tiraram o Jeep da garagem, quebrando o encanto da relíquia e a imunidade do velho. Não confirmo, mas acho que terminou na delegacia — sem maiores consequências.
A arma de Seu Sobreira não era como as dos outros policiais. Tinha detalhes curiosos; até o coldre era diferente. Como o Jeep, a arma era da guerra. Papai resolveu esse pedaço da curiosidade, que eu guardara por muito tempo: Sobreira usava um Parabellum. Na hora, confirmou-se a lenda que a gente espalhava nas brincadeiras — e, comme d’habitude, o armeiro Irapuan deu uma aula.
A lenda do velho Sobreira fermentava.
Sobreira era casado com Dona Dolores, pai de Sobreirinha(meu padrinho de crisma, casado com Licinha) e de Bethânia — ainda lembrada na calçada de Carmosa.
Se o céu é essa cena única, à qual os eleitos têm acesso universal, papai já deve saber que as pisas não cobriram todos os meus pecados. Alguns — a imensa maioria — passaram imunes ao seu controle.
Eu costumava pedir dinheiro a Sobreirinha quando o encontrava na rua. Não raramente, conseguia êxito. Era assim que eu fazia uma “feira” na bomboniere de Moisés: dois chicletes, algumas balas e um pirulito.
Certa vez, já na capital da Paraíba, estávamos eu e Oscar saindo do Ponto de Cem Réis e indo para o restaurante de Lindarice, lá no Centro Administrativo, em Jaguaribe, onde costumávamos almoçar. O carro deu sinais de que não tinha mais combustível — isso à altura da Igreja de Fátima. Ajudados pelo declive da Rua das Trincheiras, por algumas rezas e — vá lá — por almas protetoras, conseguimos chegar.
Sentamos à mesa com aquela sensação de deixar o silêncio conversar e, quem sabe, encontrar uma solução.
Linda, filha de Zé Alexandre, era uma conversa certa, antiga e agradável — uma memória viva. Quando chegou com os pratos (ambos generosos além das possibilidades), ordenou que comêssemos tudo e, olhando de lado, disse:
— Eita! Lá vem Sobreirinha.
Desviei o olhar, desconfiado, e murmurei, audível o suficiente:
— Meu padrinho, né, Cá?
A confirmação quase inaudível de Oscar — o Cá do trato doméstico — bastou para Lindarice provocar o visitante:
— Você é padrinho desse menino de Irapuan? Irapuanzinho? Sabe que ele está estudando aqui, com muito esforço, né?
Olhando para o meu corpo, que se enrolava, escondido — mas já não me guardava, de tanta timidez —, ela completou:
— Peça a bênção ao seu padrinho, menino!
A ordem me puxou de volta à cena. Obedeci.
Mas Linda não parou — nem deixou barato, literalmente:
— Dê um dinheiro ao menino. Que padrinho é esse?
Sobreirinha foi ao bolso, puxou umas notas — das mais altas da época — e me deu, abençoando-me material e espiritualmente.
Peguei a bênção, olhei de cabeça baixa para Lindarice e Oscar, agradeci e voltei para enfrentar minha parte possível — um terço — da comida que me esperava.
O ar leve de Oscar apressou o fim da refeição. Entramos no carro.
Até hoje não sei como o carro pegou e conseguimos chegar a um posto, já na Rua Vasco da Gama, onde abastecemos — tanque cheio.
Oscar pediu-me o dinheiro emprestado e disse que depois devolveria.
Nunca devolveu.
Mas a dívida permanece — e a taxa de juros é minha (em boa parte, negativa). O que eu não quero, como todo credor, é que a conta se encerre. Porque, quando a conta fecha, acabam-se também as histórias.
Ah… hoje, já meio gasto pelo tempo, acho que uma antiga amiga de Lindarice, atendendo às nossas rezas, usou-a como intercessora.
Elas sabem disso, agora.
