De Ampulheta de Estrelas
Samsara do Bhagavad-Gita
“Quod scripsi, scripsi.” Johannem 19, 22
Dentre as palavras,
eu sou o silêncio
o murmúrio,
a poesia
e o fim, quando escrevo,
deixando-me ressuscitar à interpretação.
A morte não é certa, mas os seus riscos — talvez.
Não convém que um livro permaneça fechado por longo período. Alguns personagens precisam respirar. E eles fazem esse exercício vital pelo leitor, que é, a um só tempo, senhor e servo do que lê. Isso justifica a aparência diferente deles em cada leitura, e também justifica esta história — por enquanto.
Próximo aos Cabrais, na Vila de Santa Fé, quando o Rio Piranhas nasce e se conduz até o Boqueirão, em terras de Jatobá, viveu um contador de histórias. Na verdade, de uma única história que se passava diferente para ouvidos diferentes, mesmo em audiências simultâneas. Pareciam relatos autobiográficos, não fossem os diferentes nomes do protagonista em edificações babélicas.
Na Semana Santa de um desses anos do século passado, ele foi encontrado sem vida, pendurado em um velho jatobá. Ainda remanescem dúvidas se o morto era Jesus — ou Judas. Se o protagonista salvara a humanidade diretamente ou atribuindo um mandato a alguém.
Dos vizinhos mais habituados à casa do contador, dois conseguiram sobreviver à “polissemia” que infectara a vida do “de cujus” – em suas melodias narrativas: Pedro e Paulo.
Numa epístola de Paulo a Pedro, lê-se sobre o contador:
“Eu o conheci já idoso, tentando livrar-se do destino, depois que se descobriu personagem de Deus. Foi nominalista, a princípio, até que morreu — crente em Nada.”
Paulo continua e fala de um testamento assinado por um nome irreconhecível e impronunciável, guardado entre os papéis do dia fatídico. Uma pista, posta como nota de rodapé, exortava o leitor à fuga:
“Mude-se e reinvente-se sempre que mais de duas pessoas souberem do seu nome. Deus só ouve repetições. Hoje, cedinho, eu fui…”
Paulo tentou decifrar o nome, entre o Tetragrama e as 216 letras eternas dos judeus, passando pelos 101 nomes do Islã e os 1000 nomes hindus. Quando pronunciou o inefável, descobriu no contador um assassino suicida. Ele adotara o nome de seu criador diário e pensou livrar-se Dele — morrendo.
Ressuscitou, entretanto — ao terceiro dia — quando Paulo o lia, recitando-o em línguas.
