A revolução das rosas
25/04/2026

“Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim.”

Chico

No Bar de Arnaldo, em Jatobá, o mundo chegava em discos. Chegava girando, meio torto, às vezes chiado — mas inteiro, como chegam as coisas que prestam: sem anúncio e sem explicação. Eu era menino e não sabia disso.

Um disco de Roberto Leal rodava com frequência. Tinha festa, tinha saudade disfarçada de alegria, tinha aquele jeito português de cantar como quem lembra de alguma coisa que ainda não aconteceu. A gente ouvia, ria, batucava nas latas.

Bebé de Raimundo Tomaz fundou até uma banda — Os Cachopas — porque as latas de cera tinham esse nome, e serviam melhor que qualquer instrumento afinado ao batuque. Enaldo cantava. Eu solava uma guitarra imaginária.

Mas havia, naquele disco, uma faixa que ninguém queria. Mais lenta. Mais funda. E, por isso mesmo, sempre pulada. Era a última do lado A. A gente queria o que corria — não o que ficava. Mas eu a ouvia, de vez em quando, e lia os versos no encarte.

O tempo passou, pelo seu costume de passar. E um dia eu estava em João Pessoa, no Ponto de Cem Réis, em cima de um palanque improvisado. Era 25 de abril de 1984. O Brasil tentava aprender de novo a dizer o próprio nome. Era o Movimento das Diretas Já: da Emenda Dante de Oliveira. Naquele dia seria votada a proposta de emenda constitucional no Congresso. Gritos, cartazes, esperança.

Quando persigo a liberdade, dou-me ao direito de ser questionado: Onde você estava quando…? Minha memória é biográfica. Eu não me escondo de mim — por disfarces. Dou respostas sinceras à vida.

Até que alguém gritou o meu nome.

— Irapuanzinho, hoje faz dez anos da Revolução dos Cravos. Aquela de Portugal. A que derrubou o silêncio com flores.

Corri até o locutor e falei no ouvido dele. Ele entendeu — dessas compreensões rápidas, quase cúmplices — e pediu ao povo:

— Vamos cantar o hino da Revolução dos Cravos. E pôs a música no som.

Era Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso.

E foi aí que o mistério se abriu sem pedir licença. Eu cantei. Cantei inteira. Sem procurar palavra, sem hesitar um verso. A música saiu de mim como água de cacimba — funda, antiga, guardada.

Quando terminou, eu ainda gritava — mas já não sabia de onde vinha aquilo. Porque eu não conhecia aquela música. Ou pensava que não. Demorei anos para entender.

Algumas dezenas de anos depois, em Brasília, o sábado tinha um rito: visitar sebos na Asa Norte. Eu ia com meu filho, o Maestro Ely Janoville. Era ele quem guiava a escuta — como se já tivesse nascido com o ouvido apontado para o mundo.

Num desses dias, encontramos o disco. O mesmo: de Roberto Leal. Ouvimos ali na loja. E foi Ely quem fez o gesto simples — e decisivo — de ouvir o lado inteiro. Faixa por faixa. Numa delas, estava ela: a música lenta; a esquecida. A que ninguém queria ouvir no Bar de Arnaldo. Ali estava Grândola, Vila Morena.

Fiquei quieto. Ele não. Repetiu. E repetiu de novo — como quem sabe que certas coisas precisam voltar até abrir. Foi meu filho quem quase furou o disco. E foi ele quem me mostrou o que eu já sabia sem saber.

Conversamos sobre a história da música e do compositor. Ali entendi: a memória não mora na cabeça. Mora no tempo.

Ainda menino, eu tinha aprendido a Revolução dos Cravos, sem saber o nome dela. E a vida, com sua paciência de oleiro, me entregou o sentido pelas mãos do meu filho.

Hoje, Ely mora em Lisboa. Virou maestro. Daqueles que puxam gente, não só música. Todo 25 de abril, ele vai às ruas. Toca. Puxa cordões. Carrega a canção adiante — como quem carrega uma chama que não se apaga.

E então, num desses dias, sob o céu aberto de Lisboa, entre risos, música e passos que já não pedem licença à história, alguém ergue um cravo vermelho. Não como símbolo. Mas como gesto. Um cravo simples, seguro na mão — desses que não fazem discurso, mas dizem tudo.

E ali, entre o beijo e o riso, entre o passado que insistiu e o presente que floresceu, a revolução reaparece — não mais como memória, nem como descoberta. Mas como herança. Silenciosa. Inteira. Como aquela música que um dia tocou baixo… e nunca mais deixou de tocar.

Hoje é o Dia da Revolução. E há datas que florescem duas vezes, como se fizessem aniversário em círculos de sol.

Um bom dia para um beijo — digamos, absoluto.

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