sexta-feira, 29 de maio de 2026
História do esquecimento
29/05/2026

“O Brasil não é para amadores.”

Há um desestímulo antropológico à livre iniciativa na cultura oficial brasileira, de tal maneira que tudo o que escapa ao carimbo é um milagre.

Daí a fé — como um desvirtuamento do divino e um útero de heróis voláteis.

Há casos tão agressivos de corrupção que o povo fica na expectativa de um suicídio coletivo dos envolvidos, acompanhado de uma carta-testemunho que salve do inferno as almas condenadas pelo silêncio.

Mas nada acontece.

Atualmente, para cada escândalo há uma delação em gestação — para nada. A nação entra em estado de expectativa, aguardando cada capítulo da novela que nunca chega ao fim.

Os exemplos malogrados ainda não ensinaram nada. No caso do Petrolão, até recursos reconhecidamente roubados acabaram devolvidos aos ladrões.

É uma desfaçatez inacreditável.

A força maior do escândalo, no Brasil, não produz catarse moral; produz fadiga. O povo não espera justiça: espera cansaço. Isso é profundamente brasileiro e profundamente trágico.

Há uma confiança silenciosa de que as rodas do sistema — essa engrenagem infinita — acabem perdendo força na própria inércia, até que tudo termine sem que nada aconteça, salvo o esquecimento.

Há o ladrão flagrado em áudio ou vídeo que, mais tarde, retorna absolvido — e santificado — pelo silêncio misterioso da demora processual.

A história do esquecimento do Brasil é mais real do que a história dos fatos. Porque quem controla a memória acaba controlando também o significado dos fatos.

Essa confiança também contribui para que a relação entre prosperidade e trabalho — cujo resultado natural seria o sucesso — pareça uma agressão aos olhos populares.

Atribuem a Tom Jobim uma observação célebre: “No Brasil, o sucesso causa inveja.”

É verdade. Mas a causa é outra.

Se, na acepção anarquista, a propriedade seria naturalmente um roubo, no Brasil o Estado tornou-se propriedade de uma elite assaltante.

O problema é que esse Estado-propriedade é tão invasivo que termina confundindo, aos olhos do povo, a corrupção estatal com as iniciativas privadas.

Enquanto isso, o Estado patrimonialista, em seu permanente teatro cívico, vende-se como paternalista e tutor da nação. Não para conduzi-la, mas para impedi-la de pensar. Ou, pior: para convencê-la de que pensar é um privilégio estatal.

Crescer, popularmente, tornou-se uma espécie de graça estatal. Por isso, o sucesso individual é recebido quase como uma desgraça popular.

Sempre que surge mais um caso de corrupção, vêm-me à memória a cena do vendedor de cocos e a fila de condenados nos hospitais públicos. O bodegueiro da esquina, no Rabo-da-Gata, termina apontado como culpado mais próximo, quando é apenas outra vítima.

Vi que alguns dos agora réus no caso do Hospital Padre Zé, na capital da Paraíba, já aparecem como possíveis candidatos à próxima eleição. Isso demonstra que o sistema começará a ser acionado segundo os velhos costumes. Daqui a alguns anos, tudo estará resolvido por uma canetada, e as desculpas parecerão apagadores da história real, escrevendo mais um capítulo do esquecimento.

Os álibis são construídos como verbetes de um dicionário peculiar, até que o texto final fique pronto.

Ninguém lembrará dos doentes que morreram naquele hospital, à míngua dos recursos que foram desviados. Essa conta é custeada pelo povo insolvente e cobrada pelo destino. Até as nações têm seus infernos.

Agora, os únicos empreendedores que parecem desfrutar plenamente da proteção da soberania são as facções criminosas. Para milhões de brasileiros, elas exercem funções de Estado, impondo sua ordem mediante métodos que o mundo costuma associar ao terrorismo: intimidação coletiva, domínio territorial, punições exemplares e submissão pelo medo.

Também elas serão absorvidas pela história do esquecimento.

Primeiro desaparecem as vítimas. Depois desaparecem os culpados. Por fim, desaparece a própria memória do crime.

No último grande caso de um corrupto suicida, ele terminou incorporado à própria história do esquecimento. Getúlio Vargas saiu da tirania para o panteão da liberdade.

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