*Por Lier Pires Ferreira
A derrota de Viktor Orbán, na Hungria, em abril deste ano, foi um prenúncio: “democracias iliberais” podem ser vencidas nas urnas, mesmo quando práticas eleitorais injustas favorecem o “partido da ordem”. O segundo ato veio da Sérvia: o ultranacionalista Aleksandar Vucic foi defenestrado pela Lista dos Estudantes, um movimento formado por estudantes secundaristas, acadêmicos, artistas e ativistas políticos. São experiências distintas, mas ambas revelam que governos extremistas, que desrespeitam o princípio básico da lisura eleitoral, podem ser derrotados quando a insatisfação social se converte em participação política organizada.
Por isso, a reeleição de Lula no último domingo adquire um significado especial. Com cerca de 52% dos votos válidos, o ex-líder sindical venceu uma disputa acirrada e assegurou um governo que defende o multilateralismo, a soberania nacional e as instituições democráticas. A conquista lulista não conduz ao fim da extrema-direita tupiniquim, nem resolve o problema da governabilidade, expresso por um Congresso Nacional cada vez mais refratário à sua social-democracia tardia, na qual um certo populismo fiscal turbina gastos públicos no limite do estelionato eleitoral. Entretando, nada apaga o fato de que se trata de uma vitória maiúscula, recheada de ineditismos, onde o mais icônico líder político brasileiro conquistou nas urnas seu quarto mandato presidencial. Ademais, evidencia que a maioria da população, muitas vezes silenciosa, ainda rejeita o espectro autoritário inerente ao projeto bolsonarista.
A vitória de Lula também tem forte alcance internacional. Num mundo em que forças ultranacionalistas exploram o medo, a intolerância, o ressentimento e a desconfiança nas instituições, atuando muitas vezes sob a égide de governos estrangeiros e acobertadas pelos algoritmos que movem as redes sociais, as eleições brasileiras demonstram que a disputa democrática continua aberta. Se é verdade que a derrota do bolsonarismo não elimina as contradições sociais que explicam sua ascensão, ela abre espaços para a reconstrução de canais de diálogo entre Executivo, Legislativo e Judiciário, além de fomentar políticas públicas que promovam justiça social e mecanismos mais robustos de participação popular.
É nesse sentido que a reflexão de Umberto Eco sobre o “fascismo eterno” permanece atual. O escritor italiano alertou que o fascismo não se limita à reprodução dos regimes históricos de Hitler e Mussolini. Em cada momento histórico, em cada contexto social, ele pode (re)aparecer com feições diferentes, quiçá cosmeticamente atenuadas, mas sempre nutrindo o culto à força tóxica, o nacionalismo excludente, a hostilidade à diversidade, a negação ao conhecimento e a redução dos adversários a condição de inimigos a serem destruídos. Reconhecer esses sinais exige rigor histórico e olhar atento, que não banalize o fascismo nem ignore as especificidades de cada sociedade.
Os próximos dias recolocarão essa questão em evidência. Em 27 de outubro ocorrerão as eleições parlamentares em Israel. Elas poderão reforçar o regime sionista de Benjamin Netanyahu ou extirpar um governo extremista que lidera o país a quase 20 anos. Nos Estados Unidos, as eleições legislativas do próximo dia 3 de novembro também poderão alterar a correlação de forças no Congresso, limitando ou ratificando as violências do governo Trump em nível doméstico e internacional. Sem equiparar realidades nacionais tão diferentes, importa reconhecer que a defesa do pluralismo sociopolítico, dos direitos humanos e das instituições democráticas atravessa fronteiras. Em um mundo interconectado, no qual a (des)informação circula em tempo real, a reeleição de Lula enseja um “segundo sol”, um tempo oportuno para que as luzes democráticas afastem as sombras do fascismo e permitam enxergar as complexidades que transcendem às bolhas sufocantes das redes sociais.
Nessa intrincada conjuntura, há um protagonista que merece particular atenção: a juventude. Na Sérvia, os estudantes estavam no centro das mobilizações sociais, escancarado o fato de que o jovem não é apenas uma categoria demográfica, um segmento mercadológico ou um público a ser conquistado pelos “donos do poder”. Ele é um sujeito político autônomo, capaz de confrontar liderança arcaicas, questionar estruturas e rasgar as tramas do poder. No Brasil, o desafio é transformar energia eleitoral em organização política duradoura. Presente em muitas das manifestações que ocorreram no Rio de Janeiro desde o dia 5 de outubro, quando estudantes da UFF ocuparam as ruas de Niterói em favor da reeleição do presidente, até o ato em Copacabana, no dia 24, com Lula e outras lideranças progressistas, passando pelos protestos do dia 7, na Cinelândia, protagonizados por estudantes do Colégio Pedro II, pude encontrar alunos, ex-alunos e colegas professores, desfrutando efusivamente da suprema alegria de acompanhar meu filho, 22, e amigos da faculdade de Direito da UERJ, na luta pela democracia. Estou orgulhoso demais dessa garotada!
Mas não há só flores no jardim! A democracia precisa oferecer respostas concretas às expectativas sociais. Tem que ampliar o acesso à educação pública, gratuita e de qualidade, enfrentar a precarização do trabalho, fortalecer o SUS e enfrentar as desigualdades sociais, abrindo canais de participação efetiva para as novas gerações. Também precisa combater práticas estruturantes como o racismo, o machismo e a homofobia, oferecendo respostas concretas para os desafios da segurança pública e da insegurança econômica. Quem vive com medo não enxerga o futuro! Portanto, a primavera democrática não pode se limitar a derrotar o fascismo nas urnas. Ela precisa (re)construir vínculos coletivos, proteger direitos e impedir que justas indignações sociais sejam convertidas em ressentimentos e capturadas pelo ódio. A democracia deve corrigir seus erros, dialogar com o povo e afastar uma certa soberba moral que caracteriza muitos dos que estão no campo progressista. Há que se entender que o “outro” não é necessariamente alienado, mal caráter ou reacionário. Há um campo fértil de disputas de visões e valores que deve ser permanentemente ocupado, inclusive na seara das religiões. Hoje, em que pesem vivências, conquistas e títulos, aprendo com meu filho.
Combater o fascismo eterno, portanto, não é apenas defender eleições livres e justas, mas também fortalecer o respeito à diversidade, a igualdade de oportunidades, a liberdade de expressão, a solidariedade e a participação popular, especialmente quando as certezas são confrontadas. A juventude tem um papel central nessa tarefa. Afinal, nenhuma democracia se sustenta apenas pela memória de suas conquistas. Como Lula parece ter finalmente entendido, ela precisa ser reinventada e defendida por cada geração. Viva a juventude!
*PhD em Direito. Pesquisador do NuBRICS/UFF
