“O Brasil não cabe no quintal de ninguém” (Lula)
* Por Lier Pires Ferreira, PhD em Direito. Pesquisador do NuBRICS/UFF e do REDES/UERJ
Quem acompanha o xadrez geopolítico contemporâneo, sabe que Donald Trump opera sob lógicas próprias. Longe dos manuais clássicos da diplomacia multilateral e do pudor das velhas chancelarias, o “agente laranja” enxerga o comércio internacional como uma arena de força bruta, onde as regras são ditadas pelo mais forte. Em sua “pedagogia do opressor”, tarifas não são apenas instrumentos de ajuste comercial, mas vetores de cooptação.
Diante desse estilo agressivo, o recente acordo comercial entre Washington e Pequim entrega uma lição cristalina: em um mundo fragmentado, poder não se implora; se afirma. A narrativa midiática ocidental costuma pintar o republicano como um rolo compressor capaz de demolir qualquer um que cruze seu caminho. A prática, contudo, revela um traço comportamental pragmático. Para além das dissonâncias cognitivas que voluntariamente produz, para além de sua arrogância e destempero, Trump é um negociador moldado pelo realismo mais cru: ele pressiona até o limite, blefa com alíquotas punitivas e exige rendição antecipada. Mas há um detalhe frequentemente ignorado: ele tende a respeitar quem sustenta o olhar de volta. Foi exatamente isso que fez Xi Jinping.
Pequim não titubeou, não apelou para notas vazias de repúdio nem cedeu ao pânico de mercados histéricos. Ao contrário: manobrou suas cadeias globais de suprimento, controlou exportações de insumos estratégicos, avançou seus acordos comerciais com o Sul Global e respondeu com retaliações cirúrgicas a cada tarifaço imposto. O recado chinês foi inequívoco: a China tem cacife para absorver a pancada e devolver na mesma medida. Resultado? Em vez do estrangulamento prometido pelas gralhas de Washington, o que se viu foi um acordo de acomodação mútua, com cortes recíprocos de tarifas e o reconhecimento tácito do peso asiático na geoeconomia global.
Guardadas as devidas proporções, essa mesma dinâmica repete-se no Oriente Médio. Quando olhamos para as tensões crônicas entre EUA e Irã, vemos um embate profundamente assimétrico. Os iranianos não ostentam o PIB chinês, não possuem os recursos bélicos da Rússia e há décadas são garroteados por sanções econômicas. Ainda assim, Teerã não recua de suas linhas vermelhas, mantém sua dissuasão regional e consegue jogar os custos políticos e econômicos de uma escalada militar para Washington. Por mais hostil que seja a retórica da Casa Branca, é precisamente essa recusa obstinada em capitular que força os estrategistas do Pentágono a recalcular os riscos sempre que sentem o ímpeto de apertar o gatilho.
Nem todos agem assim. Em contraste com a postura sino-iraniana, a vassalagem geopolítica da Europa é constrangedora. Longe de emular a coluna ereta de Pequim ou a resistência de Teerã, os europeus colecionam episódios de capitulação. Outrora grandes potências coloniais, eles se acostumaram a ceder preventivamente a quaisquer ameaças de Washington, aceitando placidamente cotas desvantajosas e compras forçadas para aplacar a fúria de Mar-a-Lago, chegando ao ponto de engolir os arroubos imperialistas de Trump sobre a Groenlândia. No epicentro dessa paralisia estratégica está a própria OTAN, que há muito deixou de ser uma aliança de iguais para atuar como caudatária dos interesses do Pentágono. O quadro ganha contornos quase melancólicos no Reino Unido, pós-Brexit. Sem o peso da união continental e despojada de seu antigo império, a Grã-Bretanha é um leão sem dentes, quase uma “guiana norte-americana”, reduzida ao papel de um reles serviçal que aguarda os restos geopolíticos que poderão sobrar em uma mesa na qual há muito não se senta.
Se a Europa peca pelo vergonhoso alinhamento automático, a América Latina mimetiza o servilismo europeu e sua submissão à Washington. Sob o avanço neoconservador da “Onda Azul”, diversos governos optaram pela subserviência político-ideológica, operando sob a ilusão de que concessões unilaterais e reverências públicas renderiam condescendências tarifárias e outros favores. O resultado tem sido o oposto: na cartilha trumpista, submissão não gera simpatia, mas apetite predatório. Países que renunciaram a seus instrumentos de barganha, como Panamá, Colômbia e Argentina, também foram impactados pelos tarifaços trumpistas e relegados à periferia das prioridades geopolíticas de Washington. Sonham com parcerias, mas recebem migalhas.
Nesse cenário de alinhamentos acovardados, a resistência soberana na região ficou historicamente concentrada em alguns poucos países que ainda insistem em manter as rédeas do próprio destino. O México, embora espremido por sua imensa fronteira física e amarrado aos tratados comerciais da América do Norte, aprendeu a endurecer sua postura em temas cruciais de segurança e soberania energética. Cuba, há décadas sob um embargo tão covarde quanto desnecessário, converteu a própria sobrevivência em símbolo de resistência. E o Brasil, em que pesem os vendilhões da pátria, os que batem continência para a bandeira americana, tem o dever de manter-se de pé.
A resolução do impasse entre China (potência desafiante) e EUA (potência desafiada) traz uma lição irrefutável: não há espaço para pequenez na mesa dos grandes. Mesmo países periféricos como o Brasil precisam manter uma diplomacia ativa e altiva, sustentando um universalismo pragmático que não se curva a pressões de ocasião nem aceita o papel de quintal alheio. Isso exige fortalecer o multilateralismo onde ele de fato respira: na consolidação dos BRICS como contraponto à hegemonia do dólar, na ampliação de laços estratégicos com o Sul Global e na defesa intransigente do interesse nacional. O mundo pós-hegemônico não perdoa quem tem vocação de satélite: a soberania, como Pequim acaba de demonstrar, não é apenas um princípio moral da diplomacia, mas o ativo mais rentável do comércio internacional.