João Pessoa, terça-feira, 1 de setembro de 2026
Casa Manca: O que as novas hostilidades contra o Irã ensinam ao Brasil?
31/08/2026

*Por Lier Pires Ferreira –  PhD em Direito, pesquisador do NuBRICS/UFF e do REDES/UERJ

Os Estados Unidos voltaram a atacar o Irã. Após um breve interregno em agosto, os norte-americanos bombardearam a ilha de Larak, uma localidade próxima ao porto de Bandar Abbas, cuja população mal encheria um circo mambembe. Todavia, situada na parte mais estreita de Ormuz, ela é uma importante base militar e confere ao seu controlador nítidas vantagens neste cobiçado gargalo estratégico. Não por outro motivo, já no século XVI os portugueses fortificaram o local. 

Embora Larak seja um relevante pilar militar iraniano, com lançadores de mísseis e drones, sistemas de monitoramento aeronaval e casamatas dissimuladas na topografia vulcânica, o fato mais insólito desta remontada militar foi um vídeo publicado neste domingo, 30/08, por Donald Trump. Ele mostra a ilha de Kharg, a cerca de 650 Km de Larak, sendo completamente destruída pelos EUA. 

Não há qualquer evidência de ataques norte-americanos à ilha Kharg. Os vídeos com explosões e chamas na ilha que abriga um amplo complexo portuário e um importante polo energético, foram produzidos por IA e são provavelmente falsos. Diferente de Larak, Kharg segue a sua rotina. Coração pulsante das exportações petrolíferas iranianas, é possível que a ilha venha a ser um alvo futuro das forças americanos, mas, hoje, os vídeos postados por Trump são pouco mais do que uma peça tão sórdida quanto bisonha de propaganda militar. 

Não é fácil compreender os objetivos estratégicos do “agente laranja”. A guerra contra o Irã atende muito mais a Israel do que aos EUA, tornando minimamente crível a hipótese de que Trump estaria sendo chantageado por Netanyahu por seu suposto envolvimento no deplorável caso Epstein. Da mesma forma, seus insucessos na mediação do conflito russo-ucraniano são gritantes, permitindo antever que a máquina política e militar norte-americana talvez não tenha a mesma letalidade insistentemente mostrada por franquias cinematográficas como Top Gun. A Casa Branca seria hoje uma “Casa Manca”?

Essa questão, longe de ser tranquilizadora, é sombria para o Brasil. Com China e Rússia cada vez mais próximas, como ratificado pela recente reunião de cúpula no Quirguistão, e a Europa mais consciente da necessidade de responder pela defesa do seu próprio território, a América Latina fica mais importante para os EUA. 

Vários fatos chancelam a percepção de que a águia americana voltou suas garras para o continente. O primeiro foi a aprovação da nova estratégia de segurança nacional, em 2025. Abandonando o discurso de promoção da democracia e dos Direitos Humanos, o “Corolário Trump” deixa claro que a hegemonia política, econômica e militar sobre a região é condição inegociável para a segurança americana. Assim, é essencial afastar a presença sino-russa e implantar governos títeres como Milei na Argentina, Noboa no Equador e Bukele em El Salvador.

O mesmo ocorre na Venezuela. Após o sequestro de Maduro, a presidente interina Delcy Rodríguez fechou um acordo milionário que “oficializa” o neocolonialismo norte-americano: os EUA agora controlam as maiores reservas de petróleo do país. Anteriormente, a pressão político-militar sobre o presidente panamenho, Raúl Mulino, já decretara o retorno do controle do Canal Bioceânico para os EUA.

O grande alvo agora é o Brasil. Motor histórico da integração latino-americana, o país é uma liderança do Sul-Global e uma ameaça latente à hegemonia norte-americana. Além de crescentes reservas petrolíferas, o Brasil domina tecnologias em áreas críticas como combustíveis renováveis e aviação civil/militar, desenvolve um programa autônomo de submarinos à propulsão nuclear e possui minerais estratégicos como nióbio e lítio, além de controlar a maior biodiversidade do planeta. Ademais, é um dos principais articuladores do BRICS, cuja expansão impulsiona projetos sensíveis como a desdolarização progressiva do comércio internacional, por meio do uso de moedas locais nas trocas entre os parceiros.

Portanto, ao arrepio dos lamentáveis pleitos do clã Bolsonaro contra a economia nacional, episódios amplamente documentados como a espionagem da NSA contra a ex-presidente Dilma Rousseff e a Petrobrás, em 2013, bem como a colaboração informal do Departamento de Justiça dos EUA na Operação Lava-Jato, reforçam a percepção de que o Brasil é uma alvo da espionagem e do lawfare norte-americano, isto é, o uso estratégico de leis, sistemas jurídicos e instituições legais como armas para que se possa alcançar objetivos políticos, militares ou econômicos.

Para além dos “tarifaços” que hoje limitam as relações Brasil-EUA, Washington municiona adversários políticos, influenciadores digitais e outros atores em busca de um governo títere no Brasil. Se no horizonte visível não é crível que os EUA ataquem o território nacional, como fazem no Irã, é certo que incursões tópicas na Amazônia e o ataque a navios e aeronaves civis sob o pretexto de combater o narcotráfico estão no radar de Washington. Tudo está sendo feito para que o Brasil venha a ter, em 2027, um presidente alinhado aos interesses estratégicos dos EUA.  

Portanto, a retomada das hostilidades contra o Irã não é um fenômeno isolado, mas um sintoma do reposicionamento estratégico dos EUA. Para o Brasil, o laboratório geopolítico iraniano oferece lições urgentes sobre os limites da soberania em um mundo crescentemente instável. Se o direito internacional resta frequentemente subordinado aos poderosos, se acordos diplomáticos e instituições multilaterais podem ser pulverizados pela ação inconsequente de líderes com poder global, nos cabe compreender que a verdadeira independência exige capacidade dissuasória, blindagem institucional, autonomia científico-tecnológica e desenvolvimento socioeconômico. Só assim poderemos mitigar as ações externas que, com o eterno conluio de elites locais, desejam solapar a soberania nacional.

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