terça-feira, 21 de julho de 2026
Futebol e Geopolítica: a Argentina tem muito o que ensinar e o que aprender
21/07/2026

“Os argentinos odeiam amar o Brasil e os brasileiros amam odiar a Argentina”- (Pablo Alabarces)

A Copa do Mundo FIFA 2026 encerrou suas cortinas em Nova Jersey, marcada por uma jornada argentina de dor, resiliência e leituras geopolíticas. A derrota final para a Espanha, com um gol único na prorrogação, encerrou o sonho do bicampeonato consecutivo, algo que só o Brasil alcançou, nos distantes mundiais de 1958 e 1962. Foi um desfecho amargo para a seleção platina, que, sob a batuta de Lionel Messi, se acostumou a caminhar no limite e extrair vida de onde só havia desgaste.

A trajetória da albiceleste nesta Copa Trinacional, sediada ao mesmo tempo no México, nos EUA e no Canadá, não foi uma caminhada triunfal, mas um tango triste, uma sucessão de provações. Do drama contra o Egito à vitória na prorrogação contra a Suíça, “los Hermanos” transformaram adversidade em identidade. O contraponto ideal da Argentina foi o Brasil. Enquanto os argentinos se avançavam rumo à final, os brasileiros assistiam a tudo de longe, mergulhados em tedioso silêncio. A queda melancólica da seleção diante dos vikings de Erling Haaland foi mais um capítulo vergonhoso de uma seleção que se acostumou a perder, e perder jogando mal. O contraste não poderia ser mais nítido: do lado de cá da fronteira, faltaram rumo e convicção, faltou alma; do lado de lá, sobrou catimba, capacidade de “pelar” e amor à camisa. Triste Brasil!

O auge da epopeia argentina na América do Norte foi a semifinal contra a Inglaterra. Sair atrás no placar e buscar, na raça, uma vitória dramática, por 2×1, deu nova vida a velhos fantasmas. Já durante o hino nacional, na abertura do jogo, foi possível perceber que sangue e suor seriam derramados. A memória diplomática não esquece a Guerra das Malvinas, de 1982, a última dança da ditadura militar argentina. 

Mais do que a humilhante vitória dos ingleses sobre os argentinos, o reencontro entre os dois rivais transcontinentais na América de Donald Trump – sempre temperado pela “mano de dios” de Maradona – não deixa esquecer que os EUA traíram os ideais panamericanos e as expectativas dos generais-ditadores em favor de sua aliança histórica com a Inglaterra, a quem apoiou com inteligência e logística, pondo por terra o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). 

Mas essa não seria a primeira vez que os EUA trairiam as expectativas platinas. Cinco décadas antes, em 1931, a converta USS Lexinton havia atacado e destruído instalações argentinas em Puerto Soledad, nas Malvinas Orientais, em uma bizarra disputa pelos direitos de pesca e caça de focas na região. Alguns anos mais tarde, após a Segunda Guerra Mundial, quando a Argentina de Perón tentava manter-se neutra entre Washington e Moscou, os EUA garrotearam a economia do país, impedindo que a Europa, financiada pelo Plano Marshal, comprasse o trigo e o gado argentinos, negando ao país uma chance real de desenvolvimento. Os EUA não gostam da Argentina.

Por isso, hoje, ver a Argentina de Milei curvar-se perante o Império Americano, repetindo pateticamente os governos neoliberais de Menem e de Macri, é um triste contrassenso: o aguerrimento da seleção nacional, que vendeu caro a derrota contra os espanhóis, seus antigos colonizadores, contrasta com a subserviência da Casa Rosada diante de um país que sempre desprezou os argentinos. Diferente do que pensam o governo e as tradicionais elites platinas, a integração diplomática e econômica na América do Sul é o único porto seguro para o país. 

O Brasil tem todos os motivos para manter seu apoio inequívoco à soberania argentina sobre as Malvinas, participando, também, de um ciclo comum de desenvolvimento. Futebol à parte, é preciso descolonizar as Américas, retirando de seu seio toda dominação imperialista. Contudo, uma diplomacia madura exige pragmatismo e bilateralidade. Logo, o alinhamento aos interesses argentinos nas Malvinas exige contrapartidas claras, como maior integração produtiva, cooperação energética estratégica e compromisso mútuo com o Mercosul e o Sul Global. 

A Copa do Mundo FIFA 2026 termina, assim, deixando lições que extrapolam o campo de jogo. Diferente do Brasil, a Argentina deixa o torneio de cabeça erguida, mostrando a força de sua camisa e a densidade de sua história, que, embora admirável, tem que ter a grandeza para afastar mazelas agudas, dentre as quais a chaga lastimável do racismo e do extermínio indígena. Enquanto isso, o contraste entre a subserviência de Milei e a arrogância de Trump, o tarifador-mor do planeta, relembra ao Brasil e aos povos da América Latina, que, na política mundial, como no futebol, a verdadeira força reside na solidariedade entre os vizinhos. O Brasil e a América Latina devem se livrar das imposições estrangeiras, trilhando seus próprios caminhos. Que venha a Copa do Mundo de 2028!

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Renata Medeiros — Mestre em ciência política, advogada;
Lier Pires Ferreira
— PhD em Direito (UERJ). Pesquisador do NuBRICS/UFF.