*Por Lier Pires Ferreira PhD em Direito. Pesquisador do NuBRICS/UFF e do REDES/UERJ
O fetiche pelos EUA transformou o nacionalismo regional em piada de calçadão, trazendo Flávio de sunguinha e bandeiras americanas para a orla de Copacabana.
A América Latina sempre foi fértil em paradoxos, mas a atual safra da direita continental parece reinventar o conceito de subserviência política, adendando pitadas de farsa burlesca ou de tragédia cômica. Sob a tutela de Donald Trump, o tradicional imperialismo norte-americano, reembalado pela insólita Doutrina “Donroe”, deixou de ser um fantasma a ser exorcizado e virou um fetiche estético, político e eleitoral. De Buenos Aires a Bogotá, o patriotismo subcontinental subverte a lógica nacionalista, colocando a “América em primeiro lugar”.
Enquanto Javier Milei utiliza a Casa Rosada como casamata de uma cruzada libertária, que privilegia os ricos, sangra a integração latino-americana e rifa nacos da soberania argentina por pequenos afagos de Washington, na Colômbia o espetáculo descamba para o tragicômico. La Espriella, o porta-voz de Mar-a-Lago nos Andes, realizou a proeza de passar uma régua ideológica sobre os escombros de um grave terremoto. Em meio a uma tragédia desoladora, o recém-eleito presidente esnobou a solidariedade do Brasil e de outros governos progressistas, decretando que somente o socorro humanitário vindo de países ideologicamente alinhados poderá acudir o povo colombiano. Hoje, para a direita latino-americana, ser “patriota” é jurar lealdade aos EUA.
Em terras brasileiras, essa pantomina ganhou contornos de micareta geopolítica. Neste domingo, em plena orla de Copacabana, durante o início oficial de sua campanha à presidência, o verde e amarelo disputou espaço com o azul e vermelho da bandeira norte-americana. Repetindo o pai, hoje em prisão domiciliar, o filho “Zero 01” e pífios 9 mil apoiadores celebraram o pavilhão do Império: “bater continência” para os EUA é o ápice do civismo bolsonarista. Trajando “sunguinha branca”, essa versão 2.0 do “Brasil acima de tudo” rebaixa a pátria e expõe o cinismo da direita-política, bem acomodada sob as botas de Donald Trump.
Mas se parte do eleitorado brasileiro confunde emancipação sociopolítica com piquenique na Flórida, o governo Lula também deixa seus furos. Há alguns dias, em um evento na Confederação Nacional da Indústria (CNI), o ministro da Defesa, José Mucio, rebaixou a envergadura estratégica do país a uma republiqueta de bananas, ao declarar que, diante de uma hipotética invasão norte-americana, lhe caberia somente “abrir o portão”. A rendição preventiva, embalada como tirada de botequim por quem deveria zelar pela integridade nacional, foi uma lástima entubada pelo Planalto, que não teve a dignidade de demitir Múcio. No momento que o Brasil é vitimado pelo “agente laranja” com sobretaxas absurdas e flagrantes tentativas de intervenção, a triste figura de Mucio diminui a diplomacia “ativa e altiva” do governo, soando menos como prudência e mais como atestado de covardia.
Para agravar o constrangimento geral das mais altas autoridade civis e militares em Brasília, a aula elementar de altivez republicana veio do outro lado da Cordilheira dos Anders. Sob a gestão do também direitista José Antonio Kast, o ministro de Defesa chileno, Fernando Barros, confrontado com as exigências de alinhamento político e aumento de gastos militares ditados por Washington, respondeu, sem titubear, que o Chile é uma nação soberana e “não é quintal de nenhum país”.
A lição chilena expõe o Brasil ao ridículo: enquanto ministros e candidatos se acotovelam para ver quem primeiro estende o tapete vermelho para Trump e sua trupe (sic!), é preciso que um governo vizinho lembre que a dignidade nacional e a soberania são itens inegociáveis, que não podem ser tratados como piadas praianas ou como gracejos para a burguesia. Agora, Lula tem que adentrar de vez na campanha, comunicando ao eleitorado os êxitos de seu governo e ratificando sua trajetória de lutas em favor da soberania nacional e da integração latino-americana. Cabe ao velho sindicalista impor ao bolsonarismo mais uma derrota eleitoral e afastar Mucio e patriotas de aluguel das salas envidraçadas do Palácio do Planalto. O Brasil é dos brasileiros!