terça-feira, 9 de junho de 2026
Bang-bang tarifário e o medo da desdolarização
09/06/2026

Atirando tarifaços para todos os lados, Trump busca interferir nas eleições brasileiras e permite antever o grande temor geopolíticos dos EUA: a desdolarização da economia internacional

Após uma derrota histórica na Suprema Corte, que fez retroagir boa parte das tarifas impostas unilateralmente ao Brasil e a outros países desde o início do ano passado, o presidente Donald Trump agiu rápido e sacou uma nova saraivada de “tarifaços”. Com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, uma “investigação” do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu que o Brasil está entre os países que adotam trabalhos forçados e outras páticas desleais de comércio.

A lista é longa. Da China à Arábia Saudita, do Reino Unido à República Dominicana, passando por Canadá, México e Argentina, são cerca de 60 países alvejados com tarifas adicionais entre 10% (Argentina, Canadá e Indonésia) e 12,5% (Brasil, China e Japão). Esta nova tarifa, vale destacar, se soma à outra, de 25%, também recomendada pelo USTR contra o Brasil, supostamente em retaliação a práticas comerciais injustas, dentre as quais o sistema de pagamentos conhecido com PIX, além da esdrúxula qualificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

Qual a razão desse bang-bang tarifário? A nova estratégia de segurança nacional norte-americana, aprovada no final de 2025, delimitou a América Latina como sua zona prioritária de influência hegemônica. O “Corolário Trump”, em seus próprios termos, retoma a velha “Doutrina Monroe”, de 1823, segundo a qual as Américas devem servir aos norte-americanos. A razão é óbvia: os EUA buscam limitar a presença da China no continente, onerando e sancionando investidores e empresas estrangeiras envolvidas em projetos de infraestrutura, produção energética, mineração e outras ações que contribuem para a soberania dos países e para o bem-estar de suas populações.

Pivô estratégico das Américas, o Brasil é um dos destinos prioritários dos investimentos chineses. Portanto, é alvo das políticas restritivas impostas pelo governo Trump. Na lógica do “agente laranja”, para que a América seja grande, de novo, é necessário que seu entorno estratégico seja espoliado, que suas riquezas sejam sugadas e seu povo empobreça ainda mais. A América trumpista não deseja parceiros, mas capachos. É um projeto neoimperialista, neocolonial, que precisa de “líderes” que batam continência para a bandeira americana.

Não é o caso de Lula. Negociador nato e político experiente, o presidente brasileiro pratica uma política externa altiva e ativa, que segue a linha do independentismo, do pragmatismo responsável, da busca pela materialização dos interesses nacionais. Entre erros e acertos, Lula se porta como um chefe de Estado, não como um gerente colonial. 

Ciente da necessidade de gerar saldos comerciais, devalorizar o mercado americano, de fortalecer as empresas do seu país onde quer que elas operem, Trump vem chutando as organizações multilaterais que a décadas promovem a governança global, em favor de arranjos bilaterais assimétricos e injustos, nos quais o poder de barganha dos EUA seja determinante. Por isso, mesmo um sistema de pagamentos automático e popular como o PIX, que tanto beneficia a população mais pobre, é alvo da sanha tarifária trumpista. Os interesses das operadoras de cartão de crédito norte-americanas no mercado brasileiro, em particular Amex, Mastercard e Visa, são muito mais importantes do que a estabilidade econômica do Brasil, a vitalidade de suas empresas e o emprego dos seus trabalhadores. Trump não está preocupado com o trabalho forçado, aqui ou alhures, mas exclusivamente com os interesses hegemônicos dos EUA.

Mas, em todo esse debate, que, sim, impacta o cenário eleitoral que vai ferver após a Copa do Mundo, há um pânico oculto: o movimento de desdolarização que cresce no mundo, tendo o Brasil, os demais países-BRICS e seu banco de desenvolvimento (o banco dos BRICS), como atores de primeira grandeza. Qual é a questão?

Desde o final da Segunda Grande Guerra (1945), o dólar americano se tornou a moeda internacional, sendo, ao mesmo tempo, a moeda global de trocas (transações comerciais), reservas (estoque de capitais) e valoração de matérias-primas estratégicas (precificação de commodities). Essa centralidade do dólar permite que os EUA emitam moeda para sanar seu imenso déficit público sem gerar inflação, já que todos os demais países devem estocar dólares para honrar seus compromissos externos. A centralidade do dólar também é uma arma geopolítica que permite a aplicação unilateral de sanções e o bloqueio de ativos alocados em bancos Ocidentais, que operam em franca convergência com os objetivos estratégicos da Casa Branca.

Mas o mundo está mudando. Dados do Fundo Monetário Internacional mostram que a participação do dólar nas reservas internacionais caiu de 70% no início do século XXI para cerca de 57% ao final de 2025. Países como China, Índia e Rússia já fecham grandes contratos internacionais em moedas locais. Com cerca de 40% do PIB paridade de compras, os países-BRICS avançam gradualmente para construir um sistema comum de pagamentos em moedas locais, reais inclusive, que prescinda do dólar; ao mesmo tempo em que bancos centrais de todo o mundo diversificam suas reservas, estocando ouro, euros e outros ativos. Essa é uma tendência de progressão lenta, mas irreversível.

Os EUA sabem que sua economia e o bem-estar de sua população dependem em grande medida da centralidade do dólar. Também sabem que dependem de saldos comerciais crescentes, de fontes de matérias-primas, de mercados consumidores fiéis. No contexto interamericano, nenhum outro país tem o potencial de atender às demandas norte-americanas como o Brasil. Por isso, Trump sabe que é importante ter no Planalto um serviçal obediente, uma marionete manipulável, um falso patriota que, enfim, submeta o Brasil aos norte-americanos. No fundo, o bang-bang tarifário contra o Brasil não é uma demonstração de força, mas de medo, medo de um país soberano, cujas escolhas atendam verdadeiramente aos brasileiros.

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