Em meio a tensões extremas, EUA e Irã divergem sobre as condições para a paz, enquanto Israel recua para os bastidores, deixando os ônus da negociação para a América.

Próxima de completar três meses, a guerra de fato entre EUA e Israel contra o Irã continua produzindo tensões e expectativas. O momento é de estagnação operacional: mesmo durante um breve período de trégua, agressões são perpetradas de parte a parte, sem que, contudo, haja força suficiente para demover qualquer das partes de sua posição. Assim, ao passo que o realismo ofensivo de Washington impõe sanções econômicas e bloqueia os portos iranianos, os persas respondem com guerra assimétrica, lançando ataques pontuais e controlando o Estreito de Ormuz para compensar o desequilíbrio de poder convencional.
O regime teocrático iraniano tem sofrido danos expressivos. Do assassinato do aiatolá Ali Khamenei à destruição de parte de seu programa nuclear, há inúmeras baixas já computadas pelos persas. A inflação disparou, a economia está em recessão e a perseguição a dissidentes tem se agravado. A linha dura, liderada pela Guarda Revolucionária, frequentemente sabota seus próprios negociadores, expondo o país a riscos gigantescos. Entretanto, a resiliência do regime é imensa, não havendo sinais de que possa ruir.
Do lado americano, os ônus também não são desprezíveis. Se por um lado as perdas humanas têm sido limitadas, Washington parece estar em um labirinto do qual não sabe sair. A guerra de atrito, com drones e mísseis, tem desgastado seus estoques bélicos, as bolsas de valores oscilam bruscamente e a inflação pressiona a maior economia do mundo, agravando os efeitos dos “tarifaços” impostos a dezenas de países desde o ano passado. Para piorar, mais de 60% da opinião pública considera esta guerra um erro; um erro que pode custar caro para Trump nas eleições parlamentares que se avizinham.
Neste cenário, Israel recua para os bastidores, deixando o ônus da negociação com os americanos. Enquanto isso, o país reorganiza suas forças militares e amplia seu “espaço vital”, consolidando sua presença colonial em territórios árabes ocupados, seja em Gaza, seja no sul do Líbano ou na Cisjordânia. Destruindo cidades e ceifando vidas inocentes, no longo prazo, os israelenses buscam ampliar sua envergadura política, econômica e militar, para diminuir sua dependência dos EUA, um aliado essencial, mas cada vez menos confiável.
Com a corda já bastante esticada, o Paquistão emerge como um mediador improvável, ilustrando a multipolaridade asiática. Enquanto o mundo se fixa na tríade formada por China, Rússia e Japão, Islamabad alavanca sua influência no Oriente Médio, contrabalançando suas forças em relação ao principal rival geopolítico, a Índia. Até aqui, a diplomacia paquistanesa não encontrou o ponto de equilíbrio entre as forças em conflito, mas, aos olhos do mundo, vem ganhando uma projeção inédita na história do país. A Europa, escanteada, paga com irrelevância o preço de sua antiga arrogância.
Sem avanços significativos, as negociações EUA-Irã revelam que o ego diplomático vem recalcando a pulsão de morte recíproca, sussurrando promessas de aniquilação sob o véu esgarçado da paz. Uma paz que mascara tanto o gozo sádico do exercício do poder americano, quanto o masoquismo teocrático iraniano.
Com exigências mutuamente inaceitáveis, os EUA sonham com a dominação rápida, a ação contundente, o golpe preciso que põe o adversário na lona. Tendo a China em seu retrovisor geopolítico e geoeconômico, Washington também aposta na instabilidade regional como forma de erodir as alianças eurasiáticas e conter o avanço sino-russo na região. Já o Irã, herdeiro de uma das mais antigas civilizações do mundo, joga com o tempo, com a erosão moral e política da América, testando os limites de Trump e dos aliados ocidentais.
A frágil trégua firmada por EUA e Irã está prestes a terminar, mais uma dentre outras já firmadas e que foram sistematicamente violadas, especialmente por EUA e Israel, cuja supremacia bélico-militar sobre o Irã é evidente. Mas a armadilha de segurança persiste: em um tabuleiro estratégico onde a desconfiança mútua perpetua o ciclo vicioso da ação-reação, a paz não encontra um solo fértil para prosperar.