terça-feira, 14 de abril de 2026
TACO: quando o rato insiste em rugir como um leão
14/04/2026

A retórica trumpista ecoa invariavelmente como um rugido imponente, mas suas atitudes revelam total mediocridade diante das possíveis consequências de suas decisões.

Trump always chicken out” ou “Trump sempre amarela” é a expressão consagrada pelo colunista Robert Armstrong, do Financial Times, para designar a postura do Mr. Mar a Lago, que frequentemente fala como imperador, mas governa como quem precisa recuar antes que a própria encenação o engula. Quando ameaça “acabar com uma civilização inteira” ou publica uma autoimagem que o equipara a Jesus Cristo, não estamos diante de uma frase qualquer, de uma mera representação ou de um simples excesso retórico. Trata-se da enunciação de algo que rompe o campo mínimo da legalidade internacional e da ética pública, deslocando o conflito do plano político para o da aniquilação simbólica.

Não se trata de apenas força, mas de estrutura. Trump não “flerta” com o crime de guerra ou com a profanação do sagrado, ele age com a naturalidade de quem não reconhece limites. Ao escolher como alvo a civilização persa ou equiparar-se ao redentor da cristandade, suas ações abandonam qualquer racionalidade estratégica e passam a operar num registro onde o outro deixa de ser adversário e se torna um inimigo, um alvo a ser eliminado. Isso não é geopolítica; é distorção.

É aqui que a leitura psicanalítica ilumina o movimento. No registro lacaniano, a paranoia não se define pelo medo, mas pela certeza. O sujeito paranoico não hesita, não negocia, não relativiza: ele sabe. Essa certeza sustenta a construção de um inimigo absoluto, sem fissura, sem mediação possível. A ameaça, portanto, não é tática, mas a expressão de uma posição subjetiva que dispensa o simbólico e autoriza, no limite, a violência total.

O narcisismo, nesse contexto, não aparece como traço superficial de personalidade, mas como fechamento estrutural. Trump fala como quem ocupa o lugar da verdade, não como quem disputa sentido no campo político. E quando esse lugar se articula ao poder de Estado, o discurso deixa de ser apenas performático: ele passa a tensionar, de forma instável, os próprios limites da ordem internacional.

Entretanto, como já virou padrão, o gesto não se sustenta. Trump ameaça como quem testa limites — internos e externos — e recua quando a realidade contradita os seus impulsos. Não se trata de prudência, mas de cálculo, pressão institucional e risco político. O resultado é um movimento errático: avança no discurso, recua na prática.

Mas o recuo não apaga o que foi dito. Ao contrário, deixa um rastro: desloca o aceitável, banaliza o extremo e introduz, no campo geopolítico, a possibilidade discursiva de que a eliminação total é apenas mais uma carta na mesa. Sempre produzindo novas dissonâncias cognitivas, Trump esgarça os limites do possível e torna o inconcebível trivial. Logo, o dano não está apenas no ato que não se realiza, mas no horizonte perverso que foi aberto.

Até aqui, a “águia” enunciada na retórica jamais se confirmou na ação. Bombardeios à parte, resta o teatro de poder e um mundo que precisa absorver, mais uma vez, os impactos de suas investidas. Grandioso na fala e vacilante na execução, o TACO americano implode o capital político e moral dos EUA, criando um mundo distópico, no qual as aberrações surgem como sintomas de um poder que avança sem plano de voo, testando limites e recuando sempre que confrontado pela realidade. Mas haverá limites para sua insanidade?

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