terça-feira, 26 de maio de 2026
“Vou explodi-los em mil infernos”. Trump e a geopolítica do caos
26/05/2026

Entre a esperança de um acordo e o temor do aumento das hostilidades, a frase sintetiza a diplomacia das canhoneiras, a derrocada do multilateralismo e o futuro incerto da ordem internacional.

No último sábado, 23/05, em uma coletiva sobre as negociações com o Irã, o presidente Donald Trump foi enfático: “ou chegamos a um bom acordo, ou vou explodi-los em mil infernos”. Paradoxalmente ou não, a sentençafoi proferida no curso de uma trégua cada vez mais frágil, que resiste por um fio.

A ameaça trumpista é muito mais do que uma hipérbole retórica. Ela é a síntese de uma política externa imperialista, belicista e unilateralista, pela qual o presidente pretende “fazer a América grande, de novo”. Ciente de que os EUA (potência desafiada) perdem cada vez mais terreno para a China (potência desafiante), ele aposta em uma geopolítica do caos, na “demolição desenfreada” da ordem global. Em recente entrevista à imprensa internacional, o norte-americano John Mearsheimer, um dos mais aclamados internacionalistas de nossos dias, disse que “Trump não tem freios. Ele age quase como quer, desprezando o direito internacional, as instituições e, crucialmente, seus próprios aliados”.

Os “mil infernos” de Trump não surgiram do éter. Ela é o desfecho previsível de uma gestão geopolítica que transformou a ambivalência em método, a dissonância cognitiva em regra, o medo em instrumento de obediência. De um lado, notícias otimistas, afirmando que as tratativas de paz – mediadas por Paquistão e Catar – estão “muito próximas” de um acordo definitivo, alcançando, passo a passo, o fim das hostilidades, a reabertura do Estreito de Ormuz e a desativação do programa nuclear iraniano. De outro, a crueza do campo de batalha, os bombardeios sistemáticos, as infraestruturas destruídas, as vidas perdidas. Mearsheimer afirma que o conflito com o Irã é o terceiro maior erro da política externa norte-americana nas últimas décadas, somente atrás da expansão da OTAN e da Guerra ao Terror. Para ele, “Trump pensou que teria umavitória rápida e decisiva. Agora, está atolado em uma confusão gigantesca, da qual não há saída feliz”. 

A lógica é tão simples quanto trágica. Temendo uma derrota devastadora às vésperas de uma eleição que irá renovar parte do Congresso Americano, a ameaça de aniquilação – quiçá pela utilização de armas nucleares – busca obter, pelo terror, as concessões que a força militar não logrou alcançar. Enquanto Trump e seu staff exigem que o Irã reabra o estreito e renuncie integralmente ao seu programa nuclear, o país, que está longe das vulnerabilidades que assinalam Cuba e outros desafetos históricos da política externa norte-americana, apresenta incrível resiliência e notável capacidade de reorganização de suas forças bélicas.

Do ponto de vista estratégico, mais do que a guerra e seus efeitos humanitários e econômicos, salta aos olhos a implosão da ordem multilateral habilmente construída sob a própria liderança norte-americana a partir do segundo pós-guerra (1945). Distribuindo “tarifaços” à granel e confrontando aliados e adversários quase que no mesmo tom, Trump acredita ser capaz de operar uma “desarticulação controlada” da economia mundial e uma reorganização do tabuleiro geopolítico em favor dos EUA. Todavia, até aqui, parece ter alcançado pouco mais do que a erosão do patrimônio moral da América, ora mergulhada em descréditos e desconfianças. Agressivo, o “agente laranja” confunde protagonismo com unilateralismo, hegemonia com isolamento, interesse nacional com egoísmo. Sementes podres em terreno minado não costumam dar boa colheita…

O cenário é sombrio. Para Mearsheimer, “Estamos correndo por aí com um lança-chamas”. Para ele, “Não se trata de conter a China ou a Rússia, mas de evitar que o Ocidente se desintegre por dentro.” Enquanto aguardamos os desfechos das negociações entre EUA e Irã, especulando sobre quais serão as próximas desventuras de Donald Trump, vale perguntar se os “mil infernos” anunciados serão novos e furiosos bombardeios ao Irã ou o próprio colapso da ordem mundial, lançando o mundo em uma nova era de guerras e desesperanças.

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Renata Medeiros — Mestre em ciência política, advogada;
Lier Pires Ferreira
— PhD em Direito (UERJ). Pesquisador do NuBRICS/UFF.