Momento para celebrar atletas e país cujas seleções nacionais encantam nos gramados, a Copa do Mundo também permite reflexões sobre racismo e xenofobia.

A Copa do Mundo – que neste domingo acabou para o Brasil – não é apenas a apoteose do futebol, mas uma arena que reflete importantes questões contemporâneas. Uma das mais candentes é a questão migratória. Basta olhar as seleções da Europa, do Canadá e dos EUA para notar a vibrante presença de imigrantes africanos, latinos, árabes e asiáticos.
Esta visão impõe uma reflexão crítica sobre as políticas migratórias restritivas euro-americanas, que contrastam com a riqueza que esses atletas, imigrantes ou filhos de imigrantes, trazem ao esporte. Maximizando o padrão técnico das seleções que representam, ídolos como Kylian Mbappé (França), Raheem Sterling (Inglaterra) e Giovanni Reyna (EUA) mostram que a identidade nacional não é um conceito fixo, mas uma realidade complexa, que exige cuidado e atenção.
Nos jogos, é comum que atletas de diferentes ancestralidades se abracem, seja na celebração de um gol, seja na dor de uma derrota. Entretanto, essa comunhão esportiva não reflete as políticas migratórias dos países que representam. Nos EUA, onde as regras migratórias vêm sendo endurecidas, levando a prisões e deportações em massa, cerca de 50% dos jogadores são imigrantes ou filhos de imigrantes. Agressivo, o governo Trump chegou ao cúmulo de impedir que os atletas do Irã, eliminados ainda na primeira fase do torneio, pudessem pernoitar no país. Também impediu o árbitro somali, Omar Artan, de ingressar nos EUA. Essas são atitudes inéditas, que não foram tomadas sequer pela Alemanha nazista, cujo führer, Adolf Hitler, engoliu com galhardia o brilho do afro-americano Jesse Owens nas Olimpíadas de 1936, um evento cuidadosamente produzido para celebrar a superioridade racial ariana.
Owens, inclusive, revelaria anos depois que sua principal mágoa não fora com Hitler, mas com o então presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, que não lhe enviara sequer um telegrama após a conquista das quatro medalhas de ouro no atletismo. Logo, é paradoxal que a popularidade e a importância crescente de atletas multiétnicos tenham como contrapartida o aumento da xenofobia e do racismo. Em tese, a presença desses grandes ídolos deveria contribuir para ampliar o acolhimento e a inclusão. Todavia, em várias partes do mundo, a glorificação desses atletas não diminui a hostilidade em relação aos imigrantes. Ao contrário! Essa dualidade cria um espaço perverso no qual a aceitação no esporte coexiste ou mesmo reforça a discriminação e o preconceito.
Por sua imensa visibilidade, a Copa do Mundo é uma oportunidade única para repensar as visões e as práticas excludentes sobre imigração e diversidade. Ela permite questionar governos e políticas que, sob o pretexto de proteger suas fronteiras ou identidades nacionais, esquecem que a maior força de um país está na sua capacidade de acolher e integrar, de assimilar e ampliar seus recursos humanos, suas potências vitais. Isso significa não apenas reconhecer o valor dos imigrantes, mas garantir que suas vozes sejam ouvidas e respeitadas.
A presença de jogadores de ancestralidade diversa às seleções que representam é um testemunho da potência sociocultural e econômica trazida pela imigração. Ela escancara a necessidade de questionar e problematizar a intolerância, o racismo e a xenofobia. Grandes eventos como a Copa e as Olimpíadas devem permitir que a glorificação esportiva também seja uma oportunidade de transformação política e social. O “espírito esportivo” deve inspirar não somente atletas e torcedores nos jogos, mas fomentar a inclusão e o respeito fora deles.
A Copa do Mundo pode ser mais do que um torneio, mais do que o momento de dar uma pausa nas atividades do cotidiano, encontrar os amigos e (para nós, brasileiros), tomar o fôlego necessário para as duras eleições que se avizinham. Ela deve ser um chamado à necessidade de um mundo mais justo e acolhedor, no qual as potencialidades produtivas, científicas e tecnológicas, sejam utilizadas não para produzir “trilionáriox”, mas para a construção de uma vida melhor para todos.