“O povo que arque com as consequências” – Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro
* Por Lier Pires Ferreira
Os alertas da história não devem ser ignorados. A ascensão de Mussolini nos anos 1920 e de Hitler, na década seguinte, revela como crises sociais, ressentimentos de classe e o medo podem abrir caminhos para o autoritarismo. A onda bolsonarista que varreu o Brasil em 2026, independentemente do resultado do segundo turno, recoloca o fascismo no centro do debate político.
Na Itália do pós-Primeira Guerra, a inflação, o desemprego, as greves e as mobilizações operárias alimentaram o temor de uma revolução socialista. Mussolini soube explorar a frustração nacionalista e o ressentimento de setores populares que se julgavam traídos pela ordem política. Grandes proprietários rurais e vastas parcelas do empresariado apoiaram a violência política contra os sindicatos e as organizações camponesas, ao mesmo tempo em que contribuíram para desacreditar as instituições democráticas.
Logo em seguida, a ascensão do nazismo, expressão mais radical do fascismo, foi facilitada pela crise econômica, pelo desemprego em massa e pela humilhação da derrota na Primeira Guerra Mundial. Foi assim que Hitler converteu temores e ressentimentos em ódio contra inimigos escolhidos: comunistas, liberais, judeus e a própria democracia. Ruralistas e empresários, temerosos das organizações populares e sindicais, apoiaram a radicalização nazista. Estas elites, representadas pelo governo do marechal Hindenburg, acreditavam que poderiam utilizar a violência nazista em seu benefício, controlando, ao mesmo tempo, suas principais lideranças. Os resultados dessa utopia são bem conhecidos.
Há diferenças fundamentais entre o nazifascismo ítalo-germânico e o Brasil contemporâneo. Mas as semelhanças merecem atenção. O bolsonarismo também mobiliza ressentimentos contra as mudanças sociais e as políticas de inclusão, identificando as instituições democráticas, em especial o Judiciário, como obstáculos à uma mudança idealizada. O medo da violência, as assimetrias socioeconômicas e a desconfiança em relação à política, em particular após a Operação Lava-Jato, prepararam terrenos férteis para lideranças políticas, influenciadores digitais, autoridades religiosas e toda sorte de arrivistas prometerem liberdades ilusórias e uma falsa moralização da política. Mesmo que grande parte de suas lideranças esteja envolvida em escândalos econômicos e tenham ligações orgânicas com o crime organizado, do tráfico às milícias, além de participação comprovada em surubas e outros escândalos sexuais, a propaganda bolsonarista, muito bem sedimentada contra os avanços socioeconômicos promovido pelos governos progressistas do PT, bem como sobre seus equívocos e desvios, gruda como chiclete mesmo na população mais pobre, a mais beneficiada pelas políticas de inclusão que, pela primeira vez, a inseriu no orçamento público.
O eleitorado, contudo, não é uma massa homogênea, cujas escolhas eleitorais podem ser reduzidas às manipulações, inclusive aquelas financiadas por potências estrangeiras que desejam sedimentar sua hegemonia sobre o Brasil. Dentre os eleitores do bolsonarismo, há adesões ideológicas genuínas, interesses materiais nem sempre confessáveis e convicções religiosas profundamente sedimentadas. Também há reações legítimas contra os erros e as promessas não cumpridas pelos governos progressistas. Nada disso pode ser ignorado. Afinal, nem todo eleitor do clã Bolsonaro é tolo, elitista ou fascista.
O problema começa quando o ressentimento substitui o debate público, o medo impede uma visão analítica da realidade e a divergência é tratada como ameaça existencial. Nessa hora, a política deixa de ser o espaço do debate, passando a ser vista como cruzada, onde a oposição primária entre amigos e inimigos é privilegiada. Nesse momento, quando o adversário é convertido em inimigo, já não há mais um oponente a ser vencido, mas alguém a ser destruído. Nessa hora, a visão idealizada de um falso messias ganha força, as instituições são fragilizadas e oposição é demonizada.
Também merece exame o comportamento das elites econômicas. Embora não formem um bloco uniforme, parcelas importantes desses segmentos sociais, bem como das camadas médias e das Forças Armadas, facilmente se inclinam à extrema-direita quando confrontadas com políticas de distribuição de renda, de inclusão dos pobres, de extensão de direitos. A experiência mostra que o apoio conservador às forças autoritárias pode ser vantajoso no curto prazo, mas não garante o controle sobre suas consequências. A vitória das forças bolsonaristas nas eleições de 2026 mostra que a polarização esvaziou o centro-político, inclusive a centro-direita fisiológica. Se a direita liberal, expressa pelo PSDB, já fôra derrotada pelo lulopetismo, agora o fisiologismo político de legendas como PP, PSD, União Brasil e Republicanos está sendo tragado pelo PL do clã Bolsonaro.
A rápida desidratação da direita e da centro-direita é preocupante. Em nome da governabilidade, da segurança ou da contenção às esquerdas, lideranças tradicionais estão relativizando os ataques às instituições democráticas e normalizando práticas e discursos de ódio antes inaceitáveis. Mesmo após o 08 de Janeiro, essas lideranças não despertaram para o terror que se avizinha. Um futuro governo de Flávio Bolsonaro terá maioria parlamentar e deverá avançar sobre o Judiciário, STF adiante, seja pela nomeação de novos ministros, seja pelo impeachment de outros. O radicalismo não se satisfaz com alianças pontuais: exige fidelidade canina e subserviência absoluta, impondo sua pedagogia violenta.
O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, associado ao avanço do bolsonarismo sobre os parlamentos federal e estaduais, evidenciam a dimensão política dessa nova expressão do fascismo brasileiro. Um dos casos mais relevantes é o Rio de Janeiro, onde o ex-prefeito da capital, Eduardo Paes (PSD), foi flagrantemente derrotado pelo neófito Douglas Ruas (PL), um aliado político de Cláudio Castro, investigado por peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraudes em licitações. Seu pai, o Capitão Nelson Ruas, é prefeito de São Gonçalo, um município com trágicos indicadores sociais.
Nada disso significa que o Brasil irá reproduzir a trajetória ítalo-alemã do século XX, nem mimetizar o neofascismo que hoje grassa em países como a Itália de Meloni, os EUA de Trump ou a Argentina de Milei, onde o povo passou a comer carne de asno. Ademais, como mostra a Hungria, a extrema-direita também pode ser derrotada nas urnas. Todavia, é inegável que o bolsonarismo impõe ao Brasil o desafio de unir forças contra o radicalismo político e combater o extremismo galvanizado pela liderança familiar e personalista do clã Bolsonaro.
A democracia raramente desaparece com um único golpe. Ela via sendo minada a cada ato de agressão indevidamente tolerado. Ela também se enfraquece quando o medo justifica a intolerância, os interesses econômicos legitimam a violência política e os moderados sacrificam princípios em troca de vantagens imediatas. Mussolini e Hitler não chegaram ao poder por golpes de Estado, mas, em circunstâncias próprias, foram legitimados pelo clamor popular e encontraram aliados convencidos de que poderiam domesticá-los.
Portanto, se a política não é destino, mas movimento, a questão não é saber se o Brasil irá repetir ou não os erros perpetrados por outros países, no passado ou no presente. O que importa é se a sociedade conseguirá reconhecer, a tempo, os mecanismos pelos quais o ressentimento se transforma em intolerância, a intolerância em autoritarismo e o autorismo em uma ameaça à democracia e a vida dos que insistem, verdadeiramente, em lutar por um país mais justo e solidário. A voz das urnas será ouvida no próximo dia 25 de outubro.
* PhD em Direito. Pesquisador do NuBRICS/UFF e do REDES/UERJ