Por Higor Maffei Bellini
O tempo demonstra que as críticas ao patrocínio firmado pelo Corinthians com uma plataforma de conteúdo adulto não se limitavam à preocupação sobre como ficaria a objetificação das jogadoras da equipe feminina caso fossem obrigadas a utilizar material esportivo estampado com aquela marca.
Também era necessário pensar nas torcedoras que comprariam o material esportivo do clube, onde a marca estaria presente, e que, de uma maneira ou de outra, acabariam transformadas em divulgadoras da empresa.
Agora, surgiu na imprensa a informação de que a Nike, fornecedora do material esportivo do Corinthians, estaria cobrando explicações do clube sobre a natureza dos serviços oferecidos pela nova patrocinadora, a plataforma de conteúdo adulto. Nesse momento, a discussão deixa de ser apenas moral e passa a ser também contratual.
Segundo as matérias divulgadas, o contrato assegura à Nike o direito de vetar patrocinadores em determinadas hipóteses. Discute-se agora se a natureza dos serviços oferecidos pela Fatal Fans permite o seu enquadramento nessa cláusula, o que pode levar a consequência jurídicas, como por exemplo a rescisão do contrato seja com a Nike, seja com a patrocinadora.
Isso demonstra que, no futebol, como em qualquer esporte, é indispensável ler integralmente o contrato, especialmente as cláusulas restritivas de direitos, antes de assiná-lo, a fim de verificar possíveis impedimentos e limitações.
Essa possibilidade de veto, pela fornecedora do material esportivo, também deve repercutir no valor do contrato. Se o clube não pode escolher livremente qualquer patrocinador, porque a fornecedora do material esportivo possui o direito de impedir determinadas associações comerciais, então deve receber mais pela concessão dessa prerrogativa.
O mais importante, porém, é compreender que o problema não foi criado pelo futebol feminino. Por isso, a conta de um eventual rompimento contratual, com a consequente perda de receita, não pode ser enviada à equipe feminina.
Embora a marca da plataforma não esteja estampada atualmente no uniforme das jogadoras, o futebol feminino continua sendo afetado pelas decisões comerciais tomadas pelo clube.
A questão, na verdade, é predominantemente comercial: de um lado, está a imagem da patrocinadora; de outro, a imagem da fornecedora do material esportivo e no meio o time feminino.
O futebol feminino sofre os efeitos das decisões tomadas pelo departamento comercial, mas não possui o poder de determinar que esses contratos sejam assinados ou rescindidos. Não decide, mas acaba atingido. E não pode ser responsabilizado pelas consequências de escolhas que não fez.