Quando um clube vende seu lugar, vende também sua história?
08/08/2026

Por Higor Maffei Bellini

O futebol feminino italiano perdeu, ao menos por enquanto, uma equipe de suas competições adultas de maior nível. O Freedom FC Women, de Cuneo, anunciou que não disputará a Série B italiana na temporada 2026/27 e colocou seu título esportivo à venda. A decisão foi explicada pelo presidente Danilo Merlo e noticiada por Christian Vitale, no portal Calcio Femminile Italiano.

O time do Freedom não está simplesmente fechando as portas. A intenção anunciada é continuar trabalhando com as categorias de base, que já possuem dezenas de atletas, e existe a possibilidade de participação futura em uma divisão inferior. O que termina é o atual projeto da equipe adulta na Série B.

E as razões apresentadas por Merlo talvez sejam ainda mais importantes que a própria decisão.

Segundo o dirigente, o futebol feminino italiano ainda recebe tratamento secundário quando comparado ao masculino. Ele também reclama da ausência de apoio efetivo das instituições e da pouca participação da comunidade local, relatando partidas com público muito reduzido. É a conhecida dificuldade de transformar crescimento esportivo em sustentabilidade econômica. Até aqui, infelizmente, nada que cause grande surpresa para quem acompanha o futebol feminino.

O que realmente chama atenção é a solução encontrada: vender o título esportivo. O valor obtido será destinado à Fundação Vialli e Mauro, finalidade evidentemente nobre. Mas isso não elimina uma pergunta incômoda. Um título esportivo é apenas algo a ser lembrado da história do clube ou o direito de ocupar determinada divisão?

Porque, quando um clube disputa um campeonato, aquela posição não foi construída somente pela pessoa jurídica. Foi conquistada por atletas, treinadores e funcionários. Foi acompanhada pelos torcedores. Houve vitórias, derrotas, acessos, temporadas e pessoas que passaram a identificar determinada camisa com aquela competição.

Existe uma história naquele lugar. É justamente aí que o caso italiano permite uma reflexão interessante também no Brasil, especialmente diante da expansão das SAFs.

A legislação brasileira permite diferentes formas de constituição da Sociedade Anônima do Futebol e admite a transferência de patrimônio e de ativos relacionados à atividade futebolística. Mas a transformação jurídica do futebol não deveria significar a possibilidade de simplesmente separar o clube de sua memória.

Uma SAF não deveria receber somente jogadores, contratos, direitos comerciais e uma vaga em campeonato. Se ela pretende apresentar-se como continuidade esportiva do clube associativo, precisa carregar também sua história. Isso porque existe uma diferença entre adquirir ativos de futebol e ser aquele clube. Escudo, cores, torcida, estádio, conquistas, rivalidades e memória não surgiram com o investidor e não deveriam desaparecer quando ele for embora.

É claro que uma SAF pode surgir do desmembramento do departamento de futebol de um clube e carregar consigo sua história esportiva. Entretanto, com o passar do tempo, essa SAF adquire vida própria, jurídica e economicamente distinta da associação que lhe deu origem. E, dependendo de como foram estruturadas sua constituição e posterior venda, poderá chegar o momento em que a própria SAF encerre suas atividades profissionais e, com isso, deixe de existir aquele time de futebol. Mas isso não significa necessariamente o fim do clube que um dia a criou. A associação pode continuar existindo, carregando uma história que nasceu antes da SAF e que não deveria desaparecer com ela.

O caso do Freedom que disputava o campeonato italiano feminino mostra, em escala menor, algo que merece discussão muito maior: no futebol moderno praticamente tudo passou a ter valor econômico. A questão é saber se também aceitaremos colocar preço na identidade.

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