Por Higor Maffei Bellini
Ketlen Wiggers é sinônimo de gol. Maior artilheira da história das Sereias da Vila, a camisa 7 do Santos viajou para Belo Horizonte para enfrentar o América-MG, acompanhada do pequeno Lucca, seu filho de oito meses.
Embora a presença da criança na delegação tenha chamado a atenção, levar filhos em viagens para jogos fora de casa não é uma novidade no futebol feminino brasileiro. Clubes como Cruzeiro e 3B da Amazônia já adotaram medidas semelhantes para apoiar atletas mães.
O diferencial do Santos, desta vez, esteve na utilização do novo incentivo financeiro disponibilizado pela Confederação Brasileira de Futebol. Pela primeira vez, até onde sabemos, a CBF custeou integralmente o transporte e a hospedagem do bebê e de um acompanhante, como parte de uma diretriz destinada a oferecer suporte às jogadoras durante o período de amamentação.
A medida representa um avanço importante. Muitas atletas vivem longe dos familiares e não possuem uma rede de apoio disponível para cuidar dos filhos durante viagens, concentrações e partidas. Sem esse auxílio, as jogadoras podem enfrentar preocupações constantes, desgaste emocional e dificuldades para conciliar a carreira profissional com a maternidade.
Durante décadas, engravidar significou, para muitas mulheres no futebol, o encerramento antecipado de contratos, o afastamento dos relvados e a incerteza sobre o futuro profissional. Tanto que, quando escrevi minha tese de mestrado falando dos reflexos da gravidez no contrato de imagem das atletas, muitos perguntavam: “Mas tem atletas mães no futebol?
Por isso, ver clubes e entidades responsáveis estruturarem planos de viagem adequados ajuda a romper barreiras que historicamente afastaram mães do desporto de alto rendimento.
A presença dos filhos também pode trazer tranquilidade emocional às atletas. Não precisar passar longos períodos longe das crianças permite maior concentração, segurança e equilíbrio. Além disso, a convivência dos bebés com a delegação humaniza o ambiente e demonstra que a maternidade não precisa ser tratada como um obstáculo à carreira.
O caso de Ketlen Wiggers vai além de uma viagem ou de uma partida. Ele simboliza a construção de um futebol mais acolhedor e preparado para respeitar as diferentes fases da vida das suas profissionais.
A maternidade deve ser entendida como um direito protegido, de todas as mulheres. Dentro ou fora de campo, nenhuma jogadora deveria ser obrigada a escolher entre cuidar dos filhos e continuar a exercer a sua profissão.