João Pessoa, quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Fantasmas na manhã
28/10/2026

A Manoel Jaime Xavier Filho

Desta vez a janela onde espero o nascer do sol não é a de casa. Em casa não tenho esse privilégio, tomado pelas copas altas do Lar da Providência, já por si mesmo erguido em rua mais elevada do que a minha.

A janelinha de onde, há meia hora, espreito a chegada do sol é a do ônibus de Caicó, que desde as três da manhã tenta sair dos carrascos do Seridó e entrar na estrada central da Paraíba, a BR-230, via Campina Grande. Em plena madrugada o céu é um pisca-pisca de raios, sem uma gota de chuva, só as energias subterrâneas do minério atraindo as faíscas celestes. Da poltrona do ônibus, com as luzes do mundo apagadas, vem-me a impressão de estar num filme da Segunda Grande Guerra, debaixo de cenas de bombardeios alemães. É o céu de Parelhas, saindo para o Equador, limite do Rio Grande do Norte.

Quando o sol se bota de fora já me encontro na BR-230, a janela do ônibus abrindo ângulo para a chapada imensa do Cariri, nas vizinhanças de Juazeirinho.

Conto com a sorte de ter baixado um pneu e o motorista nos mandar descer. De cima da pista dou uma rodopiada circular no mundo e não avisto nada acima do meu nível, nem árvore próxima nem serra ao longe. A terra é um prato raso emborcado, revestido de seixos e arbustos, mas dando-me uma sensação triunfante de último andar. Nenhuma altura além da minha.

Pouco tempo depois vejo-me saltando no baldo do Açude Novo de Campina, um açude que só existe hoje no meu sítio interior. Sem sair de casa, estou atravessando sempre esse itinerário, vindo do Alto do Seixo para o Pio XI ou para fazer a entrega dos talões do bicho que o tio Viana mandava a todo toque para a prestação de contas na banca.

Sinto-me pisando em minhas próprias lembranças, mesmo que do lado esquerdo, em vez do Açude Novo, existam agora um parque, um museu e um obelisco mandado construir pelo filho de Dr. Cruz, Evaldo, o irmão de Babá, no meu tempo o mais importante deles por ser o melhor cortador de vôlei do Alfredo Dantas.

Mas fora o parque do açude, o Teatro Severino Cabral e alguns sobradinhos à direita, nada parece ter mudado na área central. Os primeiro-andares são os mesmos, guardando os fantasmas sempre bem-vindos dos primitivos ocupantes, aqui o Esial, de José Jatahy, o escritório de Asfora, ali a Rádio Borborema de Gil, Fernando Silveira, Félix Araújo e Epitácio Soares, mais à esquerda a alfaiataria de Capozolli.

Sou eu, na manhã do Calçadão, quem está se sentindo fantasma. Começo a ter medo de mim mesmo, até que me aparece, atravessando o passeio, o confrade Raimundo Rodrigues, pessoa viva de hoje.

— Como está Campina? — pergunto.

— Está como você deixou.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.