João Pessoa, quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Recife, de metrô
21/10/2026

Linduarte havia recomendado o 372, o melhor rádio em ondas curtas, segundo ele. Eu venho me arranjando com um menorzinho, fanhoso, que traz a BBC, Moscou, Suécia e Holanda com razoável nitidez.

Báu Montenegro vinha no mato sem cachorro, limitado à televisão de antena comum, sem o privilégio do coronel Eilzo Matos, socado lá em Sousa, mas se lambendo de informações através de parabólica das mais potentes.

O comércio local é pobre e careiro. Um radiozinho de 7 faixas, dificílimo de se encontrar, que custava em Recife Cr$ 4.700 (no mês do plano estava por Cr$ 2.000) nas lojas de João Pessoa pediam no mesmo dia, Cr$ 6.000. Um frete de Cr$ 1.300 por meio quilo de rádio.

A esse pretexto tomamos o ônibus de Recife, conversando desde a Rodoviária de João Pessoa até avistar o deserto periférico da região do Curado, onde os homens de espírito público de Pernambuco localizaram a Rodoviária, dita de Recife, mas em pleno interior do Estado.

Exatamente aí o meu amigo emudeceu, perdeu a histrionice de todos seus instantes para a miséria ostensiva que da janela do ônibus íamos descortinando. Pior do que os mucambos úmidos e sombreados da Sociologia de Gilberto Freyre é o barracão incinerado do Alto do Céu e Curado. Nos mucambos da Zona da Mata a miséria se mistura com os seus bichos de sustentação, os porcos, as galinhas. No Curado a mistura é lixo.

O conjunto Rodoviária-Metrô parece engenharia de Detroit em pleno tabuleiro do Curimataú. Espécie de nave espacial de civilização altamente sofisticada caída na Serra da Raposa, no cerrado de Pocinhos.

O quadro econômico é tão desconcertante que o progresso, em vez de ajudar, brutaliza. O comando de avisos e sinais, excluídos de voz humana, faz da multidão um comboio. É uma boiada muda e passível que compra os tickets, atravessa as roletas, desembesta nas rampas e entra e sai do metrô. Todos como carneiros mansos correndo e parando ao zumbido eletrônico das portas.

Agora estão sentados, cabisbaixos, não como se fossem para a próxima estação de Tigipió ou Recife, mas como se caminhassem para o abate. O ar é de fatalidade na cara encardida de sandália japonesa ou no rosto ossudo da velhinha de olhos assombrados.

Báu, no mesmo estado de torpor de todo o comboio, pergunta baixinho em meu ouvido:

— Estamos indo para que campo de concentração?!

Pelos olhos, ele não estava brincando. Aliás, nunca falou tão sério.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.