Só me asseguro de que o ano é 90 por causa do jornal. Está no cabeçalho.
Avisto no alto, bem esticados, os fios da energia gerada num socavão de terra entre Alagoas e Bahia. A 170 léguas do lugar onde estou passando, manobraram um rio que vem acionar, brenha adentro, a antiga moenda de cana movida a boi e, mais adiante, a gás pobre.
No mais, sinto que não houve qualquer interferência do tempo. No lugar onde havia um serro lá está o serro, as casas no mesmo terreiro, a bagaceira, o bambual e as mesmas cercas de cajá e cedro que separavam e continuam separando as terras de Guaribas das dos grotões de Santo Antônio.
O coronel mandou cortar, há meio século, o vasto mangueiral verde-fechado que dava sombra à casa da frente e a toda a minha vida. Ruiu tudo, os alpendres, a casa de farinha, o barracão. A casa de morada parecendo suru, sem abrigar os antigos cortiços de uruçu que as flores da terra alimentavam.
“Será que ali ainda mora Seu Ambrósio?”. Paro e uma penca sêxtupla de sambudos sai porta à fora, dedo na boca, os olhos de sapiranga encandeados. “Seu Ambrósio não tinha meninos” — recordo.
Estarei mesmo em 90?
Os títulos do jornal dizem que sim, que há ameaça para os quatro milhões de carros a álcool, que derrubaram o muro de Berlim e que o Governo do Brasil, em vez de Dom Pedro, é um jovem campeão de caratê de 40 anos.
Mas este lugar onde estou me diz que não. Que somente não estou em 1990 como não ancoro em tempo nenhum, nem anterior nem posterior à data do jornal. Diviso o pequeno riacho que sai encharcando as canas da várzea e vejo a hora de chegar, na fímbria azul onde água e céu se misturam, a primeira nau cabralina que aqui adernou. Mentalmente, vejo trechos da carta de Caminha, tais e quais o lugar onde piso: “eles andam nus e comem frutos silvestres”. Os caminhos não são de tratores, nem de enxadas, mas de pés. O povo me olha com o mesmo ar desconfiado com que assistiu à primeira missa.
Estou entre os descobridores?
Olho para dentro, acostumo a vista, e vejo, em cima do pote, o caneco de flandre que me situa no exato tempo do jornal: Castrol GTX, super oil. A nau portuguesa e o motor 90 convivendo a um mesmo tempo e num mesmo chão. O homem na missa de Frei Henrique, na carta de Pero Vaz, na roupa do corpo, nas latas de lixo e o mundo na nave espacial, na civilização digital, em plena cibernética.
A estrada central é, realmente, de janeiro de 90: asfalto, ônibus, moto, Mercedes. A margem, ribanceira abaixo, não tem idade.
Mas um tiro de rolinha, estrondando de um alto a outro, me diz que o atraso não é tão grande assim: sabem utilizar a pólvora.
Lá em cima o ônibus espacial, cá em baixo a pedrada, o rato assado, o tiro de rolinha.
