João Pessoa, quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Lembrança de botador d’água
30/09/2026

Minha mãe tinha medo de que eu não desse pra gente. Logo a família era cheia de casos. O primo Justo, fazendo-se de doido, passava a vida de bodega em bodega, uma bicada para si e outra para o carneiro que o acompanhava, entrasse na bodega ou na Igreja. O que não dizia às pessoas, fazia-o para o carneiro, com o qual sempre era visto em compenetrado diálogo.

Mamãe tinha um medo horrível que eu viesse a ficar como esse primo, embora eu curtisse certa admiração, não tanto pelas suas excentricidades, mas pela sua força. Era um baixinho entroncado, cheio de cabelos, mas as mãos de um torno mecânico: nunca soltava o que segurasse, de homem a touro. Botava quatro tampas de garrafas entre as falanges e esmagava-as lentamente ao fechar a mão. Era, nesse ponto, o primo que eu queria ser, principalmente quando derrubou do cavalo um coronel da região que não correspondeu-lhe ao bom-dia. Chamavam-no Justo Doido.

Mas o grande medo de minha mãe era que eu não estudasse e ficasse como Zé de Irineu, carregando água para as famílias principais da rua. Nesse tempo, carregar água era ofício humilde, sem a menor perspectiva do grande negócio republicano que viria a ser hoje. Quem carregava água eram o negro Piau, Zé Bufinha, Sanhassu, Pata Choca e os filhos de Dinda, que na versão alagoa-novense viviam na pior tapera.

Malgrado esse receio materno, eu também tinha minhas admirações por Zé de Irineu. “Só gosta do que não presta” — ralhava ela. Mas Zé de Irineu, como o primo Justo, era valente e nada monopolizava mais minha admiração de menino do que a valentia, apesar do molenga que sempre fui.

Que me lembre, Zé só bateu catolé para o sargento Gato. Zé foi o homenzarrão que veio à imagem quando me ensinaram essa palavra. Era um bruto, mais que o animal que tangia. Uma vez bateu na burrinha com tanta violência que o sargento Gato não se conteve. Saltou da preguiçosa onde se espichava, em frente à cadeia, e gritou para o homenzarrão: “se bater nela outra vez é você quem apanha”. Tinha sido uma cipoada que a bichinha se envergara toda. Zé mediu o sargento e resolveu ficar menor do que ele. Sargento Gato não alisava.

Decepcionei-me com Zé, com a sua valentia e, por tabela, com o ofício de botador d’água, abolido por Pedro Gondim quando puxou do cano de Vaca Brava, que abastecia Campina, uma variante d’água para seu torrão natal.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.