João Pessoa, quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Ponte sobre o tempo
14/10/2026

As pontes que me ligaram a Cabaceiras ao longo de quarenta anos só davam passagem para o lado de cá. Conheço a cidade, suas histórias, sol e rio (Sol tremente e bom da primavera/ Explodindo em clarões ao escam-pado risonho), mas tudo de ouvir dizer, pela voz remota dos seus fundadores em trânsito pela Manaíra de Coriolano ou pelo estro dos seus poetas. Sei até de amores e traqui-nagens esquivos, mas sem nunca por os pés no rio nem na cidade.

E isso me convence de que Cabaceiras sempre teve grandes pontes, porém todas de vir, de trazer, nenhuma de levar, de dar passagem à Matriz de “torre alvacenta”.

A primeira pela qual transitei, fundada e fortificada em Campina Grande, realmente grande, majestosa, juvenil, foi a ponte que deu a mais promissora passagem a Cabaceiras. Não a passagem das tropas, dos tropeiros, dos mantimentos, mas a passagem de esperanças para a Paraíba inteira, “uma Paraíba que poderia ter sido e que não foi”, ponte derrubada a tiro a meio caminho:

“Quem é este menino de mãos alvas, e de estrelas na cabeça?”

Era Félix Araújo, ele mesmo pressagiando a si e à ponte: “As pedras da montanha caíram sobre mim”.

E também sobre toda uma geração, a geração dos cinqüentões de hoje, ensinada por Félix a só fitar os Andes.

Veio de Cabaceiras, também em mão única, a ponte através da qual apostávamos novos rumos para a economia e o futuro de todas as tribos, qualquer que fosse o estágio de civilização. Vontade, impulsividade e inteligência a que nada era impossível. Era Juarez Farias, que removeu com Agripino uma porção de montanhas, fez de asfalto e de luz os sonhos mais difíceis, ajudou a ligar os boqueirões perdidos ao cantochão de Paulo Afonso, e não conseguiu fazer a ponte que dá para Cabaceiras. O que lhe disse João? – “Melhor do que fazer a ponte que leva a Cabaceiras será trazer Cabaceiras para o lado de cá do rio”.

* * *

A pretexto do chamado geral para fixar Juarez na Paraíba, João Gomes voltou a reatar-me com a ponte abstrata que há quatro décadas vimos construindo, feita e fundada com material de bares, versos soltos e amores sobressaltados de antigamente.

Nesse tempo… Ah, meu bom Deus! Fazíamos versos como quem bebe sozinho, só pelo gosto de fazer, sem auditório, sem amor à repercussão. Uma poesia de endereço certo, concebida de dia para surtir efeito logo à noite. As minhas, que deixei cair nas Boninas, Orlando Tejo apanhou-as e guardou algumas, só por obra de misericórdia.

E João Gomes fala hoje como se completasse aquela frase suspensa há quase meio século, frase começada na Praça da Bandeira, sob a marquise do Esial, e retomada agora com o galego Juarez: “A gente atravessa, mesmo sem ponte”.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.