Das obras de Padre Ibiapina, duas me tocam particularmente: a Casa de Caridade e D. Antonina, ambas desaparecidas.
Da Casa propriamente dita resta-me a memória embaçada da fachada larga de janelas envidraçadas, sobressaindo de uma calçada alta que dava à construção comum alguma elevação.
Menino, saído do sítio para as missas do domingo, era para esta casa a nossa segunda obrigação. Nossa, de minha mãe, que ia ver e levar algum agrado à irmã Juvina, última e mais nova das meninas adotadas pelo santo lar do Padre Mestre e que lá ficara até entregar a alma ao descanso que ela pacientemente preparara. Eu ia levado, arrastado por minha mãe, que me privava do espetáculo da feira, da variedade de pessoas e de coisas, para ficar ouvindo conversas ciciosas por entre salas e quartos em que até as réstias de sol eram mal-assombradas.
Lembro-me do altar, na sala principal, sem mais missa, novena nem fiéis. Atravessava-se um corredor para a cozinha, onde ainda restava a mesa enorme em que a superiora, as outras irmãs, as beatas e meninas mais oravam do que comiam. Para além da porta da cozinha despencava o sítio, doação dos Tavares Cavalcanti, que garantia a água de cacimba, os legumes e frutas da manutenção da Casa. Até o governo de Pedro Gondim, que filou de Vaca Brava a água de Alagoa Nova, a cacimba da Caridade era a fonte abastecedora. Água límpida, entornada de lodo, sem tratamento, gostosíssima.
Morta Juvina, acharam que a Casa não tinha mais razão de ser. Não era monumento, nada que lembrasse nada, e construíram em seu lugar, em co-autoria com a Igreja, uma casa de saúde ou maternidade que nem o nome de Ibiapina lembrou.
Juvina morreu. D. Antonina também morreu. Também Zala e Elias Ibiapina, pessoas que incrementavam a memória de minha casa como os últimos convivas da irmandade de minha mãe. Não irmãos de sangue, mas irmãos da casa que os construtores de novas obras não conseguiram destruir. A casa que ficou comigo, que indiretamente me adotou e criou-me nas quatro paredes do Engenho Vitória regidas por uma Ibiapina, isto é, por uma filha espiritual do Padre Mestre, chegada à Casa pela Roda dos Expostos.
Que Roda dos Expostos é esta?
Será uma outra história.
Mas está aqui a Casa que Alagoa Nova não conseguiu derrubar. A que D. Antonina Freire Ibiapina construiu, tijolo por tijolo, sob o nome de “Regras do Bem Viver”.
Essas “Regras do Bem Viver” eram um pouco da vida e muito da Imitação de Cristo, livro de piedade, de penitência, de mortificação, de regras para se chegar a uma vida justa.
Esse bem viver não é o viver bem de hoje, vantajoso, confortável, quanto mais fácil melhor. É o bem viver mais coletivo que individual, pregado e melhor vivido pelo Ibiapina que a Igreja está redescobrindo como santo.
A obra externa dele foi grande, extra-paroquial, do Piauí às Alagoas, do apoio às órfãs ao socorro hospitalar. Mas a obra de formação do seu povo, dos seus missionários, segundo a qual “se deve dar com mão direita de forma que a esquerda não saiba” não foi menor. Tive o exemplo em casa