quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Beto Lobo
05/08/2026

Li por cima a manchete policial com Beto Lobo. Não entrei no texto nem nas circunstâncias.

Dia seguinte, dando carona a um colega de jornal, ele me perguntou espantado: “Você viu a chacina com os policiais caçadores?”

No outro dia, quarto depois do crime, dei com o retrato de Beto Lobo ilustrando a suíte, aparecendo, na legenda, como um dos policiais assassinados.

“Mas isto não é possível”!

Não podia associar o nome de Beto, seu rosto bom ao de policial assassinado.

Nunca desconfiei sequer que ele fosse capaz de pegar em arma, mesmo as de caçador.

Beto Lobo, neste último retrato e no da vida inteira, só me aparecia de componedor na mão, dedilhando as caixetas tipográficas da velha “A União” com a brandura e virtuosidade de quem dedilhasse Chopin. Não é exagero.

Era o chapista da nova geração que honrava as tradições do grande órgão. Os quadros difíceis de compor, com cercadura dos fios mais especiais, ficavam para ele.

Depois foi transferido para a paginação, no tempo em que o visual dos jornais dependia mais do paginador que dos secretários de redação. Ainda não havia diagramação nas redações da Paraíba, a arquitetura das páginas dependendo apenas de um “esquema” do secretário e da arte do paginador. Da minha geração, a última no regime da tipografia, eram exímios no ofício Regimar Ribeiro no “O Norte”, Beto Lobo e Paulo Barbosa em “A União” e Chambrão, mestre de obra do “Correio”.

O maior elogio na minha profissão usurpei-o de Beto Lobo, como burguesmente ocorre com todos os bons operários do mundo. Eu tinha prometido a mim mesmo fazer surpresa a José Américo com a publicação de sua conferência sobre Augusto dos Anjos em caderno especial de “A União”. A matéria era pequena para as quatro páginas do caderno. Daria no máximo uma página do jornal normal, que fora impresso na madrugada do domingo. A impressora não rodava menos de quatro páginas. Tínhamos de esticar para quatro o texto de uma. Ainda não havia os recursos de arejamento introduzidos pelo Jornal do Brasil. Veio-me a ideia de dividir a composição em quatro rodapés baixos e encher os dois terços restantes com títulos e frases soltas. O predomínio seria do espaço em branco.

Como fazer? Hoje faz até graça a pergunta. Mas naquele tempo todo o espaço em branco do jornal não passava da entrelinha.

“Vamos trabalhar como quem decora uma parede de sala” — pensei. Nada quadrado, nada regular, numa simetria de coisas assimétricas, títulos, texto e fotos subordinados à hegemonia do branco.

Compondo as peças de chumbo de alto relevo com as do “cotação” de baixo relevo, Beto inaugurou com o texto de José Américo o primeiro grito branco em jornal. O título azul de “O pássaro molhado”, encimando a infinitude branca, deu uma leveza de liberdade que arrematava visualmente o título inspiradíssimo.

Sete da manhã, vindo pegar o jornal na boca da impressora, Juarez Batista, igualmente de branco, saiu voando. Propiciei-lhe uma de suas alegrias, que eram sempre estéticas. Dia seguinte José Américo se declarava comovido, dizendo-me coisas que foram as minhas únicas glórias até hoje.

Tomei gosto, fiz carreira à roda da mesma aldeia, até que perdi “A União” e Beto Lobo de vista. Quando voltei ao velho jornal, na fase nova do off-set, Beto tinha se ido num ofício como coisa superada à disposição da Segurança. Passou ao policial Beto, sempre na portaria, na recepção, por inaptidão para mexer com armas.

Agora vem a manchete final que ele não compôs e que a sua vida nunca fez por onde!…

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.