João Pessoa, quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Joffily não calçou 40
19/08/2026

A Assembleia Legislativa tinha dado um passo atrás com a cassação do deputado João Santa Cruz de Oliveira. O mesmo ocorria com Prestes e os deputados constituintes do PCB de todo o País.

A mais de dois mil quilômetros do Rio, num desvão rural de Alagoa Nova, o febiano Adelino Alves desafiava os quatro ventos, saindo porta à fora, o dedo cortando o ar: “Eu quero ver o macho que vai me mandar tirá-lo da parede”. Referia-se a Prestes, lenço no pescoço, barbudo, lá na parede bem no lugar do Coração de Jesus.

Uma blasfêmia, diziam. Inclusive minha mãe, que não me queria em súcia com o Anticristo.

Só foi no que deu. Como todas as coisas proibidas, o Anticristo era uma atração. E começou daí a minha franca abertura para a saga aventurosa e inédita do Cavaleiro da Esperança. O despotismo da cassação, monstruosa e violenta, amadureceu-me aos treze anos. A partir daí formou-se o conceito que eu viria a ter de todos os políticos.

Quinze anos depois, quando José Joffily largou um cômodo generalato do PSD, com reeleição certa, para entregar-se à bandeira da reforma agrária e das lutas nacionalistas, vi com surpresa que nem todos ao meu redor calçavam quarenta.

Eu ainda me perguntava: será Joffily sincero? Seu gesto, entretanto, não deixava dúvida. Homem da confiança de Ruy, de todo o PSD, com uma clientela política igual aos outros, não tinha necessidade de abandonar tudo isto, arriscar o mandato e o patrimônio, apenas para passar por progressista… Não tinha sentido.

E pela terceira ou quarta vez na História da Paraíba, um homem acreditava no povo. Deixava o mandato certo do seu partido, um partido de currais, para acreditar num mandato realmente popular. Um mandato que viria na esteira da grande pregação, o povo na posse de sua consciência, desembestado do cabresto, elegendo o pedaço de terra, a escola e a subsistência conquistados em vez do dinheiro, do pano e do fubá doados.

E Joffily sobrou. Quer dizer, o povo sobrou. O governo, o Ibade e o latifúndio derramaram o possível, contando ainda com a divisão das forças progressistas, vários PCs, várias reformas, como se cada qual lutasse por um Brasil diferente.

Dois anos depois cassam Joffily. Apagam e destroem até as cruzes das estradas. Abre-se uma vala comum de um lado a outro dos canaviais para nela enterrarem-se todos os rastros camponeses. Pior do que a cova de João Fuba e de Pedro Fazendeiro. Uma cova estéril e imensa de onde nunca mais as ideias de reforma reflorescessem.

Plantaram e encimentaram. E por incrível que pareça — aos cavadores do grande buraco — lá vem a soca e a ressoca botando suas folhas e seus pendões, tardios anos depois.

Além da febre ideológica e do sonho, havia motivos para acreditarmos na Revolução Social.

Os camponeses da Zona da Mata, principalmente os da palha da cana, viviam um clima de conflagração. Tinham chegado a um grau de mobilização e de esclarecimento que faziam lembrar as ações das antologias revolucionárias. Reconstruíam as casas e os roçados que os donos de terra mandavam destruir com uma facilidade e uma organização de exército. Reuniam sem aviso prévio, a um simples toque de búzio, como foi a solidariedade de Miriri, num meio-dia de segunda-feira, ao atentado dos latifundiários de Pilar a Assis Lemos.

Parado no Ponto de Cem Réis, Osmar de Aquino achava que não devia ficar assim. E entre um gole de café e outro, num instante de “Alvear”, decidiu que devíamos denunciar a agressão à assembleia dos camponeses. “Vamos a Sapé”, ordenou, já batendo a porta do carro e mandando que entrássemos.

— Mas como podemos reunir em Sapé sem ser em dia de feira?

— Ivan Figueiredo sabe.

Em Sapé não foi possível. A população da cidade era igual às outras, sem maiores comprometimentos com a causa dos comícios que se realizavam, invariavelmente, todos os domingos. Era como se apenas cedesse o espaço. Isto viemos ver depois.

Sugeriram que descêssemos para Miriri, a grande propriedade praticamente abandonada pelos proprietários e dominada pelos camponeses. Chegamos lá ao meio-dia. A casa grande de um lado, na frente, um terreiro amplo de onde se avistavam os roçados enladeirados, terras e plantações em forma de arquibancada.

Bastou um toque de búzio para que, de repente, toda a gente dali largasse a casa e o trabalho e, descendo e subindo ladeira, estourasse em concentração popular. A corrida para o comício, vista assim em anfiteatro, eriçou-me os pelos como o espetáculo político mais emocionante de toda a minha vida. Não era o ajuntamento adrede preparado, a concentração urbana, o desfile usual de todas as ruas e de todos os tempos. Era o campo disperso e aparentemente solitário, camuflado de copas e mofumbos, rapidamente transformado em praça cívica, como se o povo se insurgisse das suas catacumbas rurais onde permanecia, indefinidamente, à espera do momento histórico.

Como tudo que é real sempre tem seus lampejos de memória e de ficção, vivi, naquele instante, a mesma emoção de Catilina descrita pelo grande projetor de sonhos, em que se transformava o estro de Osmar, nas nossas noites de iniciação artística, política e revolucionária.

A Revolução havia de vir, sem dúvida. Tudo aquilo eram cenas históricas, coisas que a gente já havia lido ou vivido em algum momento da grande aventura humana. Eram sinais dos tempos.

José Joffily também não escapava desse sonho romântico. Como nós todos, avizinhou-se da hora da libertação. Sendo que, diferente de muitos que se dispersaram ou se desiludiram, ele morreu acreditando.

canal whatsapp banner

Compartilhe:
sobre
Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.